Translate

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Desertos - X - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho




 Dar-se passos em redor da deriva; olhar para cima sem que se reze. Saber que no deserto não existem cruzes, tão só a persistência do vento ecoando as intempéries. Aguardar as tempestades de areia. Coabitar as tempestades. Sentir a areia pesar e assim rasgar o ar nos pulmões. 
Viver a vida como ela é, com a dor apertada junto ao pescoço. Soluçar. Persistir no soluço.
Encarar as metástases como rios. Ser como os rios sangrentos onde me habito. Ser os conjuntos de células vibrando-me por dentro das vísceras. 
Aguardar a imergência dos organismos. Aguardar o crescimento inflamando a divisão celular. Os ciclos de vida. Aguardar o envelhecimento e a morte. 
Precustrar a matéria orgânica. Ser a intensa deriva da matéria. Ser a genética dos corpos, o processamento orgânico dos materiais até à proliferarão anormal da divisão celular, até ao tumor anichado no peito. A germinação cancerígena habitando a viagem linfática, sanguineamente percorrendo os vários órgãos. 
A matéria, a inflamação da matéria, o inorgânico protelado no orgânico.

Ninguém jamais venceu a guerra contra o corpo, nem mesmo Jesus, cuja carne sucumbiu no Martírio da Cruz. 

Sem comentários:

Enviar um comentário