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sábado, 7 de janeiro de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXII

XXII

Rui Carvalho: existe qualquer coisa de platónico no teu discurso, no modo como estabeleces a correlação entre o bom e o belo, entre os domínios ético e estético. Estando ambos os domínios estreitamente correlacionados entre si, o acontecimento da responsabilidade é, então, também um acontecimento maiêutico?

Sebastien Void: A arte é maiêutica. A experimentação artística é um acto impregnado na maiêutica. A gestação artística é vivida no contacto e o contacto é algo que nos é dado em chaga. Somente a arte nos pode tornar outros. Somente a arte nos pode fazer crescer, tornar-nos pessoas um pouco menos mesquinhas. Somente a arte nos pode tornar melhores pessoas. 
O Sócrates platónico não é somente o excelso parteiro de almas, o Sócrates platónico é sobremaneira o excelso artista. O parteiro das almas encaminha os espíritos e no encaminhamento são abertos novos mundos. 
O acto de caminhar não implica tão só o deslocamento de um lugar a outro. O acto de caminhar implica sobretudo um ganho de consistência. A cada passo dado tornamo-nos mais consistentes. No decurso dos passos dados há um constante treino da nossa consistência, sendo que esse mesmo treino é de igual modo um treinamento do nosso estado de consciência. A cada passo dado tornamo-nos indivíduos mais conscientes. 
Não habitamos lugares, habitamo-nos a nós mesmos. Preocupamo-nos em demasia com a nossa habitação exterior, quando o que nos deveria realmente preocupar é a nossa habitação interior.
Sim, a responsabilidade inscreve-se nessa correlação umbilical entre o belo e o bom. As civilizações contemporâneas perderam por completo o sentido dessa correlação. Na contemporaneidade o bom resulta de uma estrita obediência à lei, não estabelece qualquer interligação ao belo. Aos olhos dos outros somos tanto melhores quanto melhor cumprimos escrupulosamente as leis que nos são impostas. Contudo, a lei é-nos algo exterior, é algo que nos é imposto de fora, de fora para dentro. A lei não é algo que nos crie raízes. Somos os primeiros prevaricadores, somos os primeiros a incumprir a lei desde que ninguém o saiba, desde que ninguém dê por isso. Uma ética fundada no estrito cumprimento da lei não pode constituir-se como uma ética fundante. 

Pelo contrário, a arte funda-nos. A arte estabelece-nos na radicação. A arte cria-nos raízes. 

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