Desenhar-me arduamente. Ser um destino arduamente desenhado: linhas rectas, semi-rectas, paralelas, ascendentes, concêntricas, semi-curvas - descendentes - descender até à inscrição no labirinto. Ser a petrificação, nos planos e contra-planos. Inserir-me arquitectonicamente na paisagem. No espaço exterior, edificar-me. Contrapor-me. Contrapor a organização no espaço exterior à desorganização no espaço interior.
Inscrever-me no tempo. Indagar.
Onde nos edificarmos após as ruínas? Onde vislumbrar ainda o sortilégio? Onde reencontrar tudo aquilo que jamais fomos?
A reorganização do espaço interior. Buscar a construção primeva, o primacial fundamento. Precaver-me da hecatombe. A inscrição, a edificação da arquitectura da alma. Edificar a alma longe dos pântanos.
A arche e a techne.
Uma vida assomada pela estranheza, pela impossibilidade do mero comércio com o mundo. Exangue de mim, o sentido deambulado, consumido no caminhar. Caminhando a desesperada tentativa de projectar o produto de minha edificação. Petrificando-me musicalmente. A arquitetura, a petrificação na musicalidade.
Como ser ao abrigo das intempéries? Como ser ao contrário do mundo? Como percorrer os mapas por dentro?
A atividade exterior e o seu resultado físico: prédios, casas, igrejas, palácios. A actividade interior e o seu resultado simbólico: livros, música, pintura, cinema. A correlação do homem no universo. O instrumento e o seu símbolo. A vida inscrevendo-me a pele.
Ser firme, estruturado - teimar;
Possuir um ideal, um desígnio - teimar nesse ideal;
Respeitar o que deve ser respeitado e desrespeitar tudo o resto - teimar no desrespeito;
A beleza, principalmente respeitar a beleza, ser perto da beleza sempre que possível, da beleza da carne à beleza do espírito - teimar, teimar na beleza.
Ser a firmitas, ser a utilitas, ser o decorum, ser a venustas, fundamentalmente.
Inscrever-me no tempo.
Ser-me a ser, sendo.
Fundar-me.
Fotografia: António Caeiro.
Texto: Rui Carvalho.

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