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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Love songs to no one else - XII

XII

Foste-me o inesperado canto das sereias mudando o curso de uma vida ou o encantamento das serpentes no início do pecado. Todos os antigos provérbios agora relembrados. 
O mundo pesa, sabes, o mundo pesa. 
Houve um tempo de sortilégios, houve o bálsamo de teus olhos. Parar o tempo. Parar o tempo e ficar. Eu consigo. Eu consigo parar a tempo. Ficar. Consigo ficar, eu sei. Ficar não é difícil quando ficar é estar contigo. Sem olhar o redor. Tu e eu. A unidade. A unidade não é ser um, a unidade é sermos dois. O amor. O amor é sermos dois. 
O mundo não é uno, dir-me-ás. O mundo é a multiplicidade, o mundo é a multiplicidade fluindo. Tudo flui, sem retorno. Eu sei. Conheço o peso do mundo, conheço o arrastar da tristeza. Conheço meus ombros calejados. Atlas. Atlas, aquele cujos ombros suportam o peso do mundo. Tenho forças para mais, acredita. Fluirei o mundo em meus ombros para que em nós nada flua. Nada. Nada excepto o amor fluindo. 
A reciprocidade. 
A reciprocidade é possível. 
De mãos dadas fluiremos a reciprocidade, sem resquícios de abandono. O abandono seria sermos iguais ao mundo, deixarmo-nos ser os outros. Deixarmo-nos ser as vozes em rodopio. Deixarmos que as vozes nossos corpos silenciem. 
Não. 
Nós seremos longe. Seremos longe da algazarra. Seremos longe do dito e do redito, da confusão das coisas ditas. Seremos longe das coisas ditas. Seremos o que ainda há para dizer. Na constância. Seremos seguros na constância. Ininterruptos. Segregando oxigénio. Respirando oxigênio. A vida, respirada. Inspirada, expirada. Sorvida como água, tragada como fogo. Consaboreada com o mel. 
Água, Fogo, Terra, Ar. A demanda dos elementos. Seremos a demanda dos elementos. Juntos. Juntos como astros gravitando o poder da atracção. 
Yin e Yang, o universo soletrando a união das energias. A atracção dos opostos até à impossibilidade, até à impossibilidade dos lugares comuns. 

A atracção da unidade.

A unidade da atracção.



Álvaro Cunhal, s. d.

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