Água. Somos água escorrendo. Náufragos corpos buscando o estridente deserto, uma qualquer mágoa afirmando todo este silêncio. De paradeiro incerto, sofridamente nos erigimos de encontro à estranheza do mundo.
Tempos atrás habitámos distantes lugares, longínquas terras vividas em contramão. Antes. Antes houveram promessas e nas promessas ferozmente nos discorremos. Fomos ferozes de encontro às cidades, ferozmente escorrendo por fora do leito dos rios.
Somos agora de regresso a casa. No regresso nos reerguemos as decepadas cabeças firmadas no sonho. Somos de novo a afirmativa presença. E afirmativamente presentes nos apressamos a escavação, o célere augúrio das coisas vindouras.
Antes. Antes houveram poetas cantando o declínio.
Agora somos incertos.
Incertas certezas desesperando a vicissitude.
Aguardamos declínios. Agora. Agora aguardamos a farta sede de augúrios. Somos agora desertos. Desertos náufragos abundando entre as cores, longinquamente reflexos na mais íngreme estranheza.
Gritamos: “aqui somos!”.
Ninguém nos ouve. Ninguém nos ouve porque ninguém há a ouvir. Náufragos. Náufragos até ao deserto.
Aqui, desde onde nos perecemos.
Fotografia: António Caeiro;
Texto: Rui Carvalho.

Parabéns
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