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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Desertos - III - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho


Água. Somos água escorrendo. Náufragos corpos buscando o estridente deserto, uma qualquer mágoa afirmando todo este silêncio. De paradeiro incerto, sofridamente nos erigimos de encontro à estranheza do mundo. 
Tempos atrás habitámos distantes lugares, longínquas terras vividas em contramão. Antes. Antes houveram promessas e nas promessas ferozmente nos discorremos. Fomos ferozes de encontro às cidades, ferozmente escorrendo por fora do leito dos rios. 
Somos agora de regresso a casa. No regresso nos reerguemos as decepadas cabeças firmadas no sonho. Somos de novo a afirmativa presença. E afirmativamente presentes nos apressamos a escavação, o  célere augúrio das coisas vindouras. 
Antes. Antes houveram poetas cantando o declínio. 
Agora somos incertos. 
Incertas certezas desesperando a vicissitude. 
Aguardamos declínios. Agora. Agora aguardamos a farta sede de augúrios. Somos agora desertos. Desertos náufragos abundando entre as cores, longinquamente reflexos na mais íngreme estranheza. 
Gritamos: “aqui somos!”. 
Ninguém nos ouve. Ninguém nos ouve porque ninguém há a ouvir. Náufragos. Náufragos até ao deserto. 

Aqui, desde onde nos perecemos.

Fotografia: António Caeiro;
Texto: Rui Carvalho. 




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