Um país sitiado. Um país, sinalizado na geografia do medo, debatendo-se na impossibilidade de contraposição ao mar. Entre Espanha e o mar. Sitiados. Somos sitiados entre Espanha e o mar. Germinando na opressão. Desde o inicio. Espanha e o mar. Entre Espanha e o mar, para onde ir? Debelar-nos contra um muro ou tentarmos o augúrio dos Oceanos?
Erguemos uma pronúncia e na pronúncia erigimos uma língua. Esse é o notável feito. O mais notável dos feitos. Não o delírio oceânico. Não a imberbe grandeza dos feitos oceânicos. Não a deriva do mundo, o inefável mito da expansão.
A construção de uma língua cifra a grandeza de um povo.
A batalha invisível. Vencemos a batalha invisível. Contra Espanha. Contra Espanha e contra o mundo nos batemos. A entonação. Vencemos a batalha da entonação. Na entonação erguemos uma pronúncia. Na pronúncia erigimos uma língua. A entonação, o ritmo, o acento. Somos o canto de nós mesmos. Esse é o feito. Esse é o feito a ser celebrado. Um povo que se canta. Um povo que se sabe cantar adquire lugar cativo na história do mundo. O canto é o nosso acento tónico. A língua é nossa única riqueza. Poderíamos ser enormes se nos tivéssemos sabido educar na língua que criámos. No entanto, pouco mais somos que o desprezo de nossa própria língua. Nunca paramos para escutar nosso canto. Nunca paramos para escutar nossa língua. Somos a pressa de nos sermos os outros. Somos reflexos. Reflectimo-nos em espelhos que não são nossos. Os espelhos devolvem-nos um reflexo que não é o nosso reflexo. Os espelhos onde nos miramos devolvem-nos uma visão distorcida de nós mesmos. Entre a megalomania e o amesquinhamento. Somos entre a megalomania e o amesquinhamento. Não. Não somos tão enormes quando por vezes nos fazemos. Não. Não somos tão míseros quanto nos querem fazer parecer. A língua. O nosso erro é não nos termos sabido fazer crescer com a língua, com a linguagem que nos é, com a linguagem onde nos somos. Sempre nos colocámos longe do desígnio artístico. Sempre fomos cegos de arte e de cultura. Desde sempre. Cegos fomos. Cegos somos. A cultura. A cultura é a argamassa que pode sustentar toda uma civilização. Sem cultura o mundo perece na estultícia. As migalhas. Como maltratamos as migalhas. Como maltratamos as migalhas de cultura que germinam ao contrário de tudo. A cultura germina ao contrário do mundo. A cultura é ao contrário da velocidade do mundo. A cultura radica-nos. Faz-nos centrar no que realmente importa. Longe do fogo fátuo informativo. Longe do folclore do sempre o mesmo. Connosco é sempre a mesma cantiga. Desde sempre. O fado. O nosso fado. Fazemo-nos fadados para o fado quando o fado é lá atrás. Tão lá atrás. Corridinhos e folclore não fazem crescer ninguém. As festas de aldeia. O pão e circo para o povo. Damos ao povo o que o povo quer e o povo quer o que vê. O povo é imóvel se não for movido. Somos ruminadores de pão e circo. Pão e circo é o que somos. Nada mais, nada menos.
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