Nasço palavras habitando-me para que nelas me julgue menos só. Contudo, jamais serei a salvo. Sou atolado nesta pele até aos ossos e a mentira é uma ferida que por dentro me mina.
Por dentro.
Sou as feridas que me sangram.
Nunca fui são, verdadeiramente nunca o fui, mesmo quando um dia acreditei que os passos me conduziriam a lugar algum.
Fui prestes na encarnação de personagens que não sou. Habitei as casas junto aos homens e nelas construí um império de derrotas.
Um dia acordarei com todas as coisas vibrando. Será esse o sinal que não poderei mais vibrar.
Somos derrotados.
Somos derrotados pela natureza das coisas. Um dia acordarei com a vontade derrotada. É inevitável. É inevitável que assim seja, que os camiões cheguem para fazer a mudança. Levarão tudo o que fui. Levarão todos os livros tragados na fúria, todas as jovens mulheres que me perdi.
Um dia será noite. Um dia será noite e a noite ficará. A noite será incólume e sem estrelas. Eu estarei só. Estarei só e serei doente, uma doentia mortalha por todos deixada ao abandono. Não restarão preces que mais não sejam estes ramos apontando ao céu. Um último acto de coragem. Sulcarei a terra até que os vendavais me sinalizem, e, então, perante os vendavais me erguerei o dom do abandono.
Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

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