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sábado, 17 de dezembro de 2016

Desertos - I - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho


 Aqui havia cortinas abrindo-nos a noite, para que toda a vida pudesse acontecer-nos. Aqui havia lugares e nos lugares nos sentávamos ainda prenhes de clareza. Todos os lugares eram alagados pelos rios jorrando em catadupa, pelo riso iluminado das jovens mulheres ainda em flor. A noite surgia florindo todos os resquícios do mundo e a noite era então a mais clara certeza de sermos um sonho vivido. 
Aqui.
Aqui havia cortinas e as cortinas se nos abriam. Nós abria-mo-nos com as cortinas, fingindo-nos mortos para a rotina. A rotina era a secura dos solos. Nós ainda vicejávamos. Entoávamos canções numa linguagem distante. E nas canções entoadas distávamos o amor por milímetros. Tudo falhou. Tudo falhou como tudo sempre falha. Tudo que quisemos foi desejado em demasia e a demasia entornou-nos borda fora. 
  Extravasados de nós somos agora esta angústia. Esta angústia de casas desérticas minando-nos até aos ossos. 
Agora, sim, agora. 
Agora somos casas desérticas, desabitados no desamor. 
O escuro não chega. Agora o escuro não nos chega. Tornámo-nos brancos e ressequidos como a branca cal das paredes que nos cercam. Nas paredes nos edificámos até à brancura da pele. Imiscuímo-nos na feitura das casas para que aí nos pregássemos nossa fundação. Contudo, fundimo-nos com a paisagem, somos aqueles que com a paisagem se fundem. A paisagem definha, como definham todas as paisagens tocadas pelos homens. Agora somos secos. Só teias de aranha nos habitam. 
É isto. 

É nisto que nos tornámos: corações empedernidos nas teias.   

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

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