XVIII
Rui Carvalho: a experimentação do toque e do contacto constituem-se como experimentações valorativas? Podemos inferir que existem duas realidades axiológicas antagónicas? Sendo que a primeira delas resulta da noção de valor transmitida e herdada pelos velhos hábitos adquiridos no nosso destino já traçado, e a segunda resulta da experimentação da inabilitabilidade e da consequente necessidade de constituição de um destino ainda a ser?
Void: nas sociedades de consumo tudo é aceitável. Tudo é aceitável desde que preencha o principio da utilidade, desde que constitua uma mais valia para alguém. Há uma constante demanda, uma constante e intensa busca do interesse próprio. O lucro, o lucro é o valor por excelência das sociedades de consumo. O lucro é a força motriz, o centro gravitacional das sociedade de consumo. Para as economias liberais ocidentalizadas, o lucro é o valor primeiro e primacial.
Não é possível uma comunidade de pontos de vista, uma partilha de perspectivas. Cada perspectiva individual é pessoal é intransmissível. Contudo, somos soterrados numa perspectiva artificial que nos é comum. O senso comum perspectiva-nos, enforma-nos numa perspectiva determinada. No que concerne às sociedades de consumo, o senso comum é erigido com base nas noções de utilidade, de lucro e de mais valia. Todas estas categorias são categorias mensuráveis. Por conseguinte, a estrutura axiológica das sociedades de consumo é ela mesma fundada em princípios mensuráveis e quantificáveis. Somente a experimentação da inabitabilidade nos permite sair do trilho do quantitativo e do mensurável.
Sim. Existem duas realidades axiológicas antagónicas. A primeira delas é desde logo traçada pelo nosso herdar de um destino já traçado. Quanto à segunda realidade axiológica, a mesma resulta precisamente de uma ruptura, de uma cisão que é vivenciada para com esse mesmo destino já traçado. A segunda realidade axiológica implica pois uma radical ruptura para com os velhos hábitos herdados de uma tradição pré-fabricada.
Quando a realidade deixa de fazer sentido torna-se imperioso que possamos recuperar a irrealidade. Não se trata de anular a realidade ou fazer de conta que não vemos o redor. Trata-se de estabelecer contacto. É indispensável que o contacto se estabeleça. O espirito livre erige-se a partir do contacto. É a ausência se espirito que impede a ignição do contacto. Na ausência de espírito não há contacto de maneira a ser dada a possibilidade de existência de um espírito livre. Para existir um espírito livre e indispensável que antes de mais exista um espírito para libertar. É através da experimentação dessa mesma libertação do espirito que se erige a arqueologia de uma nova maneira de ser e de pensar. É a partir da gestação dessa mesma nova maneira de ser e de pensar que se constitui a verdadeira estrutura axiológica do mundo. A paixão, a arte, o amor e a fé são, pois, aquilo que de mais valioso se vislumbra através das indispensáveis brechas axiológicas.
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