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domingo, 11 de dezembro de 2016

Entrevista a Sebastien Void - IXX

IXX
Rui Carvalho: as brechas axiológicas são então momentos constitutivos do valor. Consegues explicar-nos melhor a noção de brecha axiológica?

Void: toda a nossa existência é dada na contraposição entre o espirito e a matéria. A realidade, chamemos-lhe assim, é uma entidade dialéctica. Sendo que o principal foco dialéctico da realidade é dado justamente na contraposição entre o espirito e a matéria, entre uma realidade material e uma realidade espiritual. Acontece que a materialidade nos é mais auto evidente. A materialidade é o local onde constantemente nos tropeçamos. Por isso, somos desde logo acometidos por uma estruturação axiológica que se cinge à evidência material do mundo. É a partir da evidência material do mundo que estruturamos as nossas vidas. Trata-se da sobrevivência imediata. De modo a podermos sobreviver temos necessariamente que enganar ou ser enganados.  Não há outro modo. Trata-se de irmos sendo o que nos é dado ser. Somos espertos ou menos espertos. Os mais espertos enganam. Os menos espertos são enganados. Digamos que nos debatemos com duas estruturações axiológicas que são antagônicas entre si. Podemos chamar estruturação axiológica material à primeira dessas estruturações e estruturação axiológica espiritual à segunda.    
As brechas axiológicas acontecem no rasgo. O rasgo é o instante em que a realidade é rasgada, em que a realidade é irrompida pela irrealidade. O rasgo é acontecido no ínterim entre o sonho e a vigília. O instante do rasgo é o momento em que o sonhado se reúne ao vivido de tal modo que proporciona a implosão da “realidade”. O lugar onde a “realidade” implode é o lugar do vislumbre. No vislumbre, isto é, no ínterim entre o sonho e a vigília, é esse o lugar das manifestações da “realidade”. A “realidade” é a vida a acontecer. O acontecer da “realidade” é manifesto como valor. As mais profundas manifestações do valor são dadas na vivência da paixão, da arte, do amor, da fé. Esses são os primordiais acontecimentos do valor. O valor é acontecido como vida. Tudo que é valioso é acontecido no ínterim. No ínterim entre o sonhado e o vivido. Todas as experiências valiosas são entre o sonho e a vigília. Daí advêm todos os verdadeiros valores. É essa a origem axiológica do verdadeiro sentido do mundo. É aí, no concreto lugar da paixão, que se dá a estruturação axiológica espiritual. 

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