XVII
Rui Carvalho: quando referes o toque e o contacto estás a referir-te a duas categorias existenciais, certo? Qual a distinção entre ambas?
Void: certo, o toque e o contacto são categorias existenciais. São, contudo, duas categorias existenciais complementares entre si. O contacto está directamente correlacionado com o momento de instalação da perplexidade. A perda de pé. A perda de pé coloca-nos perante a perplexidade. Perplexos, perplexos e em perda de pé somos obrigados a nos redireccionarmos. O nosso destino deixa de ser - o destino traçado, para passar a ser - o destino a traçar. O facto de termos um destino a traçar responsabiliza-nos, torna-nos contemporâneos de nós mesmos. O ser contemporâneo de nós mesmos conduz-nos à experimentação da inabitabilidade. Somos seres de hábitos. Somos habitados pelos nossos próprios hábitos. Os hábitos são-nos socialmente incutidos. Contudo, a experiência da contemporaneidade desabita-nos de velhos hábitos. Ao sermos desabitados de velhos hábitos tornamo-nos sem abrigo. Ser contemporâneo de si mesmo é ser sem abrigo. O sem abrigo é aquele que ainda procura onde se abrigar. Todos os outros se habitam nos hábitos de todos os outros. O sem abrigo procura ainda o seu próprio hábito. O sem abrigo procura a sua habitação. A habitação do sem abrigo é longe da habitual habitação onde todos os outros se habitam. Na procura de habitação somos tocados pelo mundo. Emitimos sons. Emitimos sinais, símbolos. Somos tocados. O ser tocado torna-nos seres musicais. Somos inscritos na musicalidade do mundo. Emitimos sons, é isso. Somos emissores. Emissores e receptores de sons, de símbolos. Na procura de habitação vamos treinando a nossa caixa de ressonância. A cada passo dado somos mais aptos ao toque do mundo. Quando mais andamos mais amplificamos os sinais recebidos. Transfiguramos os sinais em sentido. Somos transfigurantes de sons, de sinais. Cada sentido traz uma nova direcção que se nos abre. Em perspectiva. Somos em perspectiva. Somos perspectivas que se espraiam. Como tapetes de areia. Desenhamos formas e incutimo-nos nas formas que desenhamos. Escrevemos pautas e incrustamo-nos nas pautas que desenhamos. A arte, a arte é-nos entre o contacto e o toque do mundo.
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