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domingo, 18 de dezembro de 2016

Entrevista a Sebastien Void - XX

Entrevista a Sebastien Void

XX

Rui Carvalho: a fundamentação da estrutura axiológica espiritual, no contexto em que a referes, é erigida a partir do domínio estético. Tal implica que se possa fundar uma ética a partir desse mesmo domínio. Contudo, as éticas tradicionais têm um outro tipo de fundamentação. Qual das éticas é então a Ética?

Void: tudo que é valioso é dado na implosão, no momento de implosão entre o sonho e a vigília. O momento da implosão é o lugar onde o húmus da realidade se deixa moldar pela idealidade. A paixão, o amor, a arte, a fé eclodem. A eclosão da “realidade” é dada na experimentação estética. 
O mundo é um lugar de desejo. A experimentação artística e a experimentação da fé são os locais onde mais radicalmente se dão os movimentos do amor e da paixão. A argamassa do desejo é transcrita na emanação energética da espiritualidade. É esse movimento, é a partir desse movimento que se funda toda uma Ética. As éticas tradicionais são fundamentadas em imposições, são dadas como lei. O agir desconforme, o agir em desconformidade ética é apenas uma fuga à lei. A fuga à lei não é sentida como culpa, não é vivida como remorso.  

A energia que emana da obra de arte e a energia que emana da fé são geradas na oposição do espírito à matéria. O artista, tal qual o crente, é aquele que está em luta com o mundo, com a materialidade do mundo. A matéria do mundo é a argamassa desde onde se desvela a espiritualidade. É na implosão dialéctica, na contraposição entre espirito e matéria, que o sentido ético vinga. Somente esteticamente, somente no plano estético pode o sentido ético vingar. Alicerçando-se esteticamente a Ética é vivida na plenitude da carne viva. O sentido ético toca-nos, não já como mera lei e como mera obediência à lei, mas como vivência concreta do paradoxo. No paradoxo há a exigência do salto, e o salto é dado na escolha de uma das múltiplas direcções visíveis. O paradoxo é o cerne da vida, e o cerne da vida joga-se na escolha, na constante necessidade de decisão perante as encruzilhadas. Somos seres que se jogam. Somos seres que se jogam a cada encruzilhada. As encruzilhadas são constantes. A encruzilhada é o lugar de nossas vidas.    

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