O fim do mundo nunca é o fim do mundo. O fim do mundo é o mundo a tornar-se outro. O mundo roda, em círculos, sem princípio nem fim. Sem princípio nem fim, o Universo circula. São nossos olhos que criam o princípio e o fim das coisas. O rápido movimento do olhar. O rápido movimento do olhar cria-nos o espaço e o tempo. O espaço no tempo. O tempo no espaço. Sem espaço e tempo o mundo não fluiria. Sem espaço e tempo seriamos estatuescos.
O ser outro do mundo é o que há de real. Constante. A constante mudança das coisas nos lugares. A constante mudança dos lugares em nós. A realidade. A realidade é em devir. Somos em devir. Estátuas vertidas em areia.
Não olhar para trás.
Nunca olhar para trás.
Esse é o segredo. Devemos ser contrários à esposa de Lot. Sem olhar para trás. Devemos seguir em frente.
A vida, o mundo.
A vida é Sodoma, O mundo é Sodoma e Gomorra. A vida não é o céu. A vida não é o inabitado céu dos anjos.
Tal qual o mundo, a paixão circula, sem princípio nem fim. É nosso olhar que cria o princípio e o fim das coisas. A paixão não acaba. A paixão não acaba nunca. A paixão circula, tal qual o mundo. A realidade da paixão é circular. Circular e secular. A paixão são os corpos das jovens mulheres, das jovens em flor, das doces mulheres desfloradas. A paixão é subir o impossível em nós até ao limite de nós mesmos. A paixão. A paixão é o desejo de deus. A paixão é o desejo de deus a partir dos corpos.
Havia em nós o desejo de partir, de vislumbrar a remota origem de onde viéramos. Diria que sempre falámos de estradas, de caminhos que nos levariam a outros lugares. Ambos sabíamos que partiríamos. Esse era nosso desígnio. Nosso desígnio era partir. Partiríamos. Mais tarde ou mais cedo. Mais tarde ou mais cedo cruzaríamos o horizonte. Cruzaríamos o horizonte na senda da origem, da origem do que éramos.
Diria que somos ténues linhas cruzando o horizonte. Sem deixar rasto. Sem fazermos história. A maioria de nós. Ténues linhas. Eis o que somos. Era isso que não queríamos. Foi isso que não quisemos. Ser ténues linhas. Foi isso. Foi isso que nos separou. A possibilidade de não sermos mais que ténues linhas, dando filhos para a morte.
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