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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Desertos - II - Fotografia de António Caeiro; Texto de Rui Carvalho


  Pavimentaram-nos o chão para que não nos semeássemos. E no entanto, eis-nos: ervas daninhas crescendo. A arte floresce, onde menos se espera. Onde quer que haja sede de espírito e alguma chuva caindo, desde a imensidão do céu. Somos refletidos na imagem da terra, entre a terra e o céu. Eis-nos. Eis onde nos espelhamos. Por entre a triste cor da alguma chuva caindo. 
Aguardaremos o dilúvio. Aqui aguardaremos que o céu nos caia, para que o céu caído seu infeliz amor reencontre. 
Gaia e Úrano suspensos na ira de Cronos, o Deus da decepação. 
Aqui ouvimos a chuva que ainda há pouco deixou de cair. Aqui escutamos o passar do tempo, entre a chuva que vai e a chuva que vem. Aqui é a terra, prenhe de nós. Prenhe de ervas daninhas crescendo, habitando os interstícios do solo, a terra. 
Pavimentaram-nos o chão. Pavimentaram-nos o chão para que do mundo mais não esperássemos que o haver a ser. Contudo, ainda esperamos milagres. Esperamos ainda que o céu nos caia, para que no céu caído o mundo nos recomeçe. Em ânsia, aguardamos o recomeço. Ansiamos cataclismos. Ansiamos o reencontro em Gaia e Úrano. Antes ainda do Tempo urdindo a vingança.  
Libertar-nos-emos das grades que nos cercam. As grades são imagens impostas na paisagem e ervas daninhas não conhecem prisões. 
Aqui, aqui nos espelhamos. Espraiamo-nos luz acima para que a luz nos incida. Temos sede de luz, da luminosa saudade impregnada em futuro. À vileza que nos cerca contrapomos os intrépidos lugares onde nos crescemos. Somos iluminados pela estranheza do que somos. Aqui, no preciso lugar das apostas perdidas seremos a vitória dos reencontros. 

Foto: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

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