O desespero é ser-se amaldiçoado no duplo toque da desavença. A necessidade de verdade e, na necessidade de verdade, o dom da escrita. O desastre. O desastre e a sublimação do desastre. O naufrágio. O acontecer de mim mesmo emergindo no naufrágio. Ser para a verdade é ser para o naufrágio. É ir até à perda de pé. Ir até à perda de pé e naufragar. Sou a demanda do nado. Na perda de pé sou a demanda do nado. A nadar. A nadar, matéria e forma se conjugam na imprecisão do dizível. A nadar sou dado na impossibilidade de transcrição do real. No nadar sou a luta. A luta lutando. Até ao avesso das vísceras. A luta é até ao avesso das vísceras. Até ao vislumbre da possibilidade inaugural. A clareza. Um rasgo de claridade. Até ao rasgo de claridade. O rasgo de claridade é o instante inaugural. A confusão é escura, escusa. Na confusão ocorre o rasgo. Nado na escuridão. Sou naufragado na escuridão. A claridade do clarão acrescenta-me ao mundo. O todo da visibilidade é indiscernível. Somente temos acesso ao rasgo. A necessidade de verdade é um correlato da necessidade de transparência. O rasgo não proporciona transparência. O rasgo apenas dá alguma luz. A claridade dá alguma luz. A claridade da alguma luz é momentânea. O rasgo enche-nos na estranheza. No rasgo estamos estranhos. O rasgo é pouco tempo. O ser pouco tempo do rasgo exige-nos rapidez. É necessário ser-se rápido, de modo a acompanhar o instante do rasgo. Como uma droga. O rasgo torna-se viciante. Tornamo-nos adictos do rasgo. Somos adictos do rasgo. Queremos rasgo, cada vez mais rasgo, e que o rasgo dure cada vez mais tempo. Queremos que o rasgo nos traga transparência. Somos necessitados de transparência. Somos guiados na vontade de verdade. O desespero. O desespero advém da humana incapacidade de adquirir transparência. O rasgo é a única possibilidade. Ao queremos mais que o rasgo estamos perdidos. Ser perdido no naufrágio é estar em desespero. A busca da transparência é um acto insano. Procurar transparência no domínio do possível é um acto de insanidade. Somente nos é dado adquirir o pequeno rasgo de claridade. Porque não me fico pela claridade? Porque há em mim a exigência do transparecimento? Porque sou insano? Porque continuamente rasgo as vísceras nas palavras? Porque me são caras as palavras? São as palavras a transcrição do mundo? Porque me ecoam as palavras? Porque não sou outro? Porque não sou vão? Porque não sou vão como o mundo? Porque pretendo que o mundo me faça sentido? A estranheza é perto da insanide. Tão perto que quase se tocam. Insanos. Porque não é nosso mundo o mundo das casas habitadas? Porque é estranho o nosso habitar? Damos passos na floresta. Ao dar passos na floresta adquirimos a forma do ser florestal. Somos aqueles cujos uivos à noite se ouvem. Perplexos. Perplexos na impossibilidade do transparecimento. Vagando adquirimos a forma do vagar. Vagando emitimos sinais. Somos emissores de sinais. Também a escrita é vaga. Palavras. Meros sinais significando o mundo. Interior e exterior. O interior e o exterior do mundo. O mundo lá fora e o mundo cá dentro. Como conjugar o inconjugável? Porquê a inquietude do conjugar? Como fazer que o mundo lá fora faça sentido cá dentro? É o sentir sentido? É o sentido visível? A transparência. Como visar a transparência? É a transparência lá fora ou é a transparência cá dentro? Existem duas modalidades de transparência? Se existem duas modalidades de transparência são elas perscrutáveis entre si? Porque queremos mais que o que podemos ter? Porque não queremos coisas? Porque não queremos coisas e mais coisas? Porque não queremos ser colecionadores de coisas? Porque colecionamos palavras? Porque trocamos as coisas pelas palavras? Porque nos são as palavras valiosas? Porque não fazemos silêncio? Porque não fazemos silêncio para que o silêncio nos toque? A nadar. A nadar nadamos no nada.
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