Excerto da entrevista a Sebastien Void
V
Rui Carvalho: depreende-se do teu discurso que a Arte constitui o epicentro da tua vida. Ao que parece, sem arte a tua vida seria destituída de sentido. Até que ponto a tua vida e a arte são acontecimentos indistintos?
Void: a arte é edificante. A arte é o acontecimento da edificação. Sendo a arte o acontecimento da edificação é evidente que arte e vida se revelam acontecimentos indissociáveis. A arte é uma emanação do carácter. É indispensável ter-se carácter para se ser produtor de arte. Acho que é por isso que nunca me assumi verdadeiramente como um artista. Sempre achei que o meu carácter não era suficientemente forte. Não era ainda suficientemente forte. Por isso decidi edificar o meu carácter. A edificação do meu carácter seria o passo a dar. Só edificado me atreveria a mover-me no domínio estético. A falta de carácter é mesmo o primeiro motor da não arte. O mundo tresanda a indivíduos destituídos de carácter que se alcandoram a artistas. Um gajo tem que ter algum respeito. Um gajo houve Bach e fica atónito com o carácter que emana daquela música. Depois de ouvir uma música com tanto carácter ficamos exangues. O que podemos fazer? O que podemos fazer para chegar lá? O que podemos fazer para alcançar o carácter daquela música? Bom, não apenas o carácter daquela música, a genialidade daquela música. Nada. Ou nascemos génios ou nada feito. Na música de Bach não se trata apenas de carácter. Trata-se de génio. Ou se é genial ou não se é genial. Existem três grandes domínios artísticos, a não arte (a arte destituída de carácter), a arte com caráter e a arte de génio. O problema é chegar à arte de génio. Como chegamos lá? Como viver a arte de génio? Como fazer de nossas vidas o acontecimento do génio? Como fazer de nossas vidas uma obra de arte? É isso que nos deveria preocupar. É isso que me preocupa. Preocupa-me a edificação. Ao edificar-me percorro etapas. A etapa posterior solidifica a etapa anterior. E assim sucessivamente. Sou por camadas. A edificação faz-se percorrendo etapas, subindo degraus. A subida dos degraus torna-me mais próximo da aquisição de carácter. O Bowie é, talvez, o exemplo mais próximo e mais claro de alguém cuja vida foi vivida enquanto obra de arte. A vida do Bowie foi uma obra de arte, a morte do Bowie é uma obra de arte. É impossível dissociar a vida e a morte do Bowie do seu legado artístico. É indispensável que nos saibamos fazer arder. A Arte é o acontecer da ardição. O artista é uma fogueira a arder. A arte é entre as chamas. O artista é aquele que é em chamas. Tal qual a arte, também a vida arde. Somos seres de ardição. Tal como disse o Artaud, procuro ser aquilo que devo ser, uma “vitima queimada na pira, a transmitir sinais por entre as chamas”.
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