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sábado, 15 de outubro de 2016

Entramos no mundo como se estivéssemos a entrar num trem em andamento. Somos socialmente adestrados para poder acompanhar o compasso, o andamento do trem. Acompanhar o trem. Acompanhar o compasso. Não perder o andamento. Somos o não perder do andamento. Somos o não perder do andamento do trem. Onde está o trem? Onde está o andamento? Onde está o andamento do trem? Onde está a música? Onde acompanhamos a música? Onde estão os compassos? Quais são os compassos? Onde acompanhamos o mundo? Desde onde acompanhamos o mundo? A música. Somos como teclas de um piano. Somos tocados como teclas de um piano. Quem nos toca? Somos nós quem nos tocamos? O toque é o centro do universo. O humano centra-se no toque. A vida. A vida é a vivência do toque. O toque sinaliza-nos o compasso do mundo. O toque pode ser o toque compassado do trem ou o toque do sair do compasso. No sair do compasso o toque regista-se-nos como empurrão. Somos empurrados para fora do trem. O andar do trem é o andar adestrado. Entre o mimetismo e o atavismo. No trem batemos palmas no ritmo do compasso. As palmas são muitas. As palmas são imensas. O ruído das muitas palmas embala-nos no compasso. A habituação ao ritmo das palmas é desde cedo. O desde cedo do ritmo das palmas dá-nos o ruído como algo familiar. O ruído do trem é-nos familiar. Desde cedo. Desde cedo somos tocados no ritmo do trem. O compasso é sempre o mesmo. O trem desembarca sempre as mesmas estações. Há um roteiro. O roteiro é decorado. No roteiro fazemos coisas, cumprimos funções. No roteiro somos a funcionalidade do trem. O trem é conduzido. Na condução do trem não há peripécias. O trem não improvisa. O trem segue o roteiro. “Pouca terra, pouca terra…”. Indefinidamente. Seguindo o roteiro somos pouca coisa. No entanto somos muitos. O ser muitos no cumprimento do roteiro faz-nos presentes. Estamos em algazarra. O estar em algazarra anima-nos. No compasso gritamos as palmas. Compassadamente. A plenos pulmões. As palmas são acompanhadas de gritos, de vociferações. Na algazarra é proibido o discurso com sentido. Na algazarra o único sentido é o sentido das palmas. 

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