Da maresia tão só me sobram búzios por dentro dos ouvidos. É neles que julgo matar saudades. Os sons do início da Terra. Os corpos girando em torno da adolescência. Não se trata de virar a cara e olhar outra perspectiva. Não. Não há outra perspectiva. Há outros olhos. Há outras visões. Contudo, não há outra perspectiva. Não há outro mundo que não o que nos temos a haver. Podemos ser cegos, sim. A cegueira pode durar toda uma vida. É quase sempre assim. Somos cegos no rodopio. Toda uma vida. Rodopiamo-nos até perder o fôlego. De fôlego gasto julgamos descansar nossas vidas. Descansamos nossas vidas nas coisas que nos são perto. E no entanto, tudo é tão longe. Tudo é tão longe e imperdurável. Todas as coisas se nos perdem, como areia por entre os dedos. No fim de tudo nada nos resta. Nada mais que o assombro da memória. Deveríamos educar-nos para a morte. Deveríamos educar-nos para a morte e não para o exercício da mentira. E no entanto, somos peritos no mentir. De tanto mentir perdemo-nos de nós mesmos e do trilho que deveríamos seguir. Esquecemo-nos a importância de adquirir memória. De quão importante é adquirir memória. Adquirir o lastro da memória para que a memória perdure milénios. Porque não nos adquirimos a imperceptível matéria dos sonhos? Não basta apenas porfiar, é urgente tecer o mundo. Descontruir o que foi feito e sobre o mesmo reerguer o delírio. Destruir para criar. Criar um mundo novo sobre os escombros do velho. Esquecemos a consulta dos oráculos, tão lá atrás. Trocámos os oráculos pelos psicólogos, pelos psiquiatras. Como fossem os médicos superiores à sabedoria. O senhor é muito negativista. O Sr. trate-se. O Sr. distraia-se. Divirta-se. Não, não. O mundo não é assim tal qual o vê. Há sempre um lado positivo em todas as coisas. Irra. Qual lado positivo qual porra. Não há lado positivo. Há a verdade e a mentira. Os médicos serão tragados pelos vermes. E eu, eu, que não quero ser comido, arderei as chamas até morrer e depois de morto continuarei a arder. Ashes to ashes, como diria Bowie, o velho sábio.
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