Translate

domingo, 23 de outubro de 2016

O compasso. Cada compasso. Cada compasso é o relato do mundo. O compasso. Os passos dados em conjunto. A marcha. Os passos dados em conjunto constituem marcha. Marchando. Marchando lado a lado. Dois corpos marchando lado a lado. Em conjunto. Os corpos marchando em conjunto enformam a dança. Na dança se liberta o medo. A toxicidade do medo é liberta na dança. Na dança somos livres. Libertos. A dança liberta. A dança. A dança exige escuta. Escutando exercemos a dança. Os passos de dança são compassados. Cada pé no seu lugar. Em cada lugar do passo dado é cumprido o tempo. O tempo no espaço. O espaço no tempo. Dançando. Dançando se mima o mundo. Tempo e espaço. O tempo e o espaço acolhem a matéria dançante. A matéria vibra no tempo e no espaço. Porque parámos? Porque parámos de dançar? Desde cedo. Desde cedo parámos de dançar. Desde cedo nos tornámos consentâneos com o não mundo. O adestramento. O adestramento social constitui-nos no não mundo. As tarefas. Adestrados cumprimos tarefas. Adestrados tornamo-nos cumpridores de tarefas. O não mundo. A técnica. O não mundo joga-nos na tecnicidade. A tecnicidade atola-nos. Atolados encontramo-nos impedidos de dar passos. Não damos passos. Deixamos de dar passos. Os passos são-nos dados. O não mundo obriga-nos os passos. Automaticamente. Como marionetes. Os cordéis da marionete são manobrados. A cruzeta. O principio da manipulação.  Do principio ao fim, nossas vidas são manobradas na cruzeta. Os cordéis provindos da cruzeta são contrários ao mundo. Na cruzeta não escutamos o compasso do mundo. Na cruzeta cumprimos o compasso da cruzeta. A cruzeta constitui-nos no não mundo. 

Os passos. 

Os passos do viandante são contrários aos passos da marionete. Somente o viandante dá passos. O fantoche executa. O fantoche executa tarefas para as quais foi adestrado. O executor de tarefas. O fantoche é o mero executor de tarefas. Somente o viandante está apto para a dança. O viandante rompe os cordéis. De rompante. O viandante irrompe dos cordéis que o ligavam à cruzeta. Rompendo os cordéis o viandante está apto para a dança. Dançando. Dançando o viandante acolhe o mundo. O viandante vive dançando. Mesmo que não saia do mesmo lugar. Mesmo sem sair do mesmo lugar o viandante dança. A dança é o inicio da viagem. Dançando. Dançando se inicia a viagem. A dança é o principio da escuta. O mundo escuta-se dançando. Dançando se é matéria. Incandescendo. Largando luzes noite fora. As luzes. As luzes iluminam a escuridão. As luzes iluminam a penumbra. A penumbra é incandescida pelas luzes. Pelas luzes da matéria dançante. A matéria dançante fulmina o não mundo. Fulminado. Fulminado, o não mundo torna-se mundo. O mundo criado na dança apaga a memória do não mundo. O não mundo não dança. O não mundo dança-nos. Só o mundo dança. Somente a dança cumpre o desígnio da matéria dançante. Lado a lado. Dançando lado a lado cumprimos o desígnio da  matéria dançante. A matéria dançante dançando o tempo e o espaço. 

Dança-me, meu amor.

Dança-me!


Como a primeira vez.

Sem comentários:

Enviar um comentário