Translate

sábado, 29 de outubro de 2016

Entrevista a Sebastien Void - VIII

Entrevista a Sebastien Void

VIII
       Rui Carvalho: Referes o quotidiano como uma realidade pantanosa. Referes também o modo como nos podemos edificar, mesmo nas areias movediças da quotidianidade. Contudo, nem todos os indivíduos são lançados no feito da edificação, é mesmo extremamente exíguo o número de pessoas dados à aprendizagem da arte da navegação. Qual a razão da exiguidade desse número? 
Void: O quotidiano é constituído naquilo que nos é habitual, é aquilo que nos é presente na nossa vivência diária. Além do mais, o quotidiano é-nos pre-determinado. Somos jogados nas pre-determinações quotidianas. Dai resulta a evidência de um lugar de areias movediças. O quotidiano é pantanoso. E é pantanoso essencialmente por ser o lugar que nos atola. Somos atolados nos afazeres quotidianos. Como crianças buscando brinquedos. Somos como crianças buscando brinquedos. Andamos em busca. Sendo que essa mesma busca se nos constitui como rodopio. Somos rodopiados como bestas buscando cenouras. Em torno da nora. Rodamos em torno da nora. Rodando em torno da nora enchemos os alcatruzes. Há seres humanos que parecem ter sido gerados para o feito de encher alcatruzes. A imensa maioria dos humanos é “feliz” na “arte” de encher alcatruzes, ainda que a água armazenada nunca lhes tenha sequer vertido nas gargantas. Nem uma pinga. Nem uma gota sequer. A imensa maioria é “feliz” na pre-determinação. A sua felicidade resume-se em atingir tudo o que todos atingem. Os mais ambiciosos ambicionam um pouco mais. Os mais ambiciosos passam por cima dos menos ambiciosos. Assim se gera a amálgama. A amálgama poderia ser descrita como “tanta gente feliz vendo novelas”. Os muitos vendo novelas estão atolados. Mais que estarem atolados, são atolados. Já não saem dali. Dê por onde der. 
  Contudo, o quotidiano pode também apontar à relação espaço-temporal na qual se dá a vivência quotidiana. É no apontar dessa co-relação entre espaço e tempo que se constitui o nosso estar no mundo enquanto seres para a preocupação. Na quotidianidade podemos ser exercidos no modo da ocupação ou podemos exercer-nos no modo da preocupação. No decurso do nosso estar no mundo, o quotidiano pode constituir-se-nos como um qualquer outro objecto, ou melhor, o quotidiano é, por excelência, o local onde nos podemos exercer face a face para com os objectos. A experiência quotidiana pode, no entanto, ser uma experiência autêntica ou uma experiência inautêntica. Somente é uma experiência autêntica quando nos exercemos no modo da preocupação. Na preocupação exercemo-nos perante a autenticidade da experiência quotidiana. A preocupação é um fenómeno que deriva do nosso estar a lidar com a experiência quotidiana de um modo autêntico. Preocupados exercemo-nos de modo autêntico. A arte da navegação é apreendida na autenticidade do estar a remar contra as marés do mundo.

Sem comentários:

Enviar um comentário