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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Entrevista a Sebastien Void - IV

IV

Excerto da entrevista a Sebastien Void

Rui Carvalho: viver na exiguidade ou na exiguidade extrema é estar a ser contra o mundo, é estar a ser contra a maré do mundo. Ser constantemente contra a maré do mundo é uma posição difícil ou mesmo insustentável, como sustentas a insustentabilidade da tua posição? 

Void: a vida é um jogo de sorte e azar. Habitamos um casino onde a sorte é um fenómeno raro. O prémio sai sempre à casa. Pelo menos quase sempre. Somos seres de hábitos. Também eu sou um ser de hábitos. Tudo é uma questão de habituação. Habito o mundo de mortos em meu redor. Os mortos acompanham-me, os mortos possibilitam-me suportar o embate do mundo. Quando sinto que me encontro numa posição ou num humor mais insustentável agarro-me ao Livro do Desassossego. Os livros já me salvaram a vida várias vezes. Os livros e a música. A Arte, a Arte salva-me a vida. A cada dia. A cada fricção com a realidade é a arte que me sara as feridas. A arte, somente a arte nos pode salvar sermos soterrados na avalanche de imbecilidade que nos rodeia. A imbecil atmosfera do mundo seria insustentável sem arte. Somente a arte nos pode atenuar o desencanto. O desencantado é o ser que germina no canto. O desencantado erige-se no canto. Prostrado longe do vulgo o desencantado germina no canto. A arte é uma erva daninha germinando, mesmo entre as ruínas. É estreita a correlação entre a arte e o sofrimento. A arte germina no sofrimento, nasce do sofrimento. O artista é aquele que sofre a inadequação ao mundo. Tal qual o filósofo. A produção artística e filosófica nascem do sofrimento do mundo. A inadequação. A inadequação ao mundo é a condição primeira do acontecer da arte e da filosofia. Inadequados. Inadequados estamos em desequilíbrio. A produção artística é o evento que me possibilita o equilíbrio. Funâmbulo. Sou-me no exercício do funambulismo. A arte é a vara que me equilibra. Entre os extremos. Sou um exercício de equilíbrio. Entre os extremos. Exerço-me devagar e sem demasiadas acrobacias. É esse o segredo. É essa a condição que me suporta. A arte suporta-me o peso do mundo. Caminho as palavras, os tons, os sons. Caminho os resquícios de beleza. Até que os resquícios me habitem. Sou-me habitado nos resquícios. Sou-me o que resta da agrura. Sou entre a agrura das coisas. Na agrura me germino, sou a germinar na agrura. Funâmbulo. Meus pés rasgam o arame dos dias. Até ao rasganço dos caminhos. O desbravamento situa-me. Sou o ser situado. Entre o fim e o princípio. A vida é o regresso da morte. Na morte somos regressados. O regresso não é uma mera possibilidade. O regresso é todo o domínio do possível. Sou em preparação. Impreparado. Impreparado me sou na preparação do regresso. Vou e venho com as marés. Assim me habituo a natureza das coisas. Água, ar, terra, fogo. Sou a demanda dos elementos. Procuro o oficio da demanda, na demanda me germino. Funâmbulo. Funâmbulo sustenho o embate das marés do mundo.       

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