Entrevista a Sebastien Void
VII
Rui Carvalho: O projecto de edificação do humano não admite derivas. Há uma premissa fundamental que tem que ser preenchida quando nos pretendemos erigir. É necessário que encontremos chão firme, alicerces que nos fundamentem. Onde encontras esses alicerces?
Void: De facto, só nos podemos erigir em terra firme. As areias movediças do quotidiano são um terreno impróprio para o erigir do que quer que seja. A edificação implica o abandono das areias movediças. Contudo, o abandono da quotidianidade é uma tarefa difícil, hercúlea, por vezes. Até que ponto nos é suportável o abandono da quotidianidade? O abandono puro e simples é uma tarefa impossível. O abandono é uma tarefa impossível, a não ser que estejamos perto da santidade. O truque. O truque passa por sabermos adquirir a capacidade de ganhar lastro. Ganhar lastro. A edificação implica que saibamos ganhar lastro. Ganhando lastro é-nos possível sobreviver as areias movediças. Trata-se de nos tornarmos aptos a navegar o quotidiano sem que sejamos tragados nas suas areias movediças. Os riscos são imensos. O quotidiano é pejado de armadilhas. Somos rodeados de armadilhas. As armadilhas são por todo o lado. É indispensável que estejamos aptos a nos moldarmos a atmosfera que nos rodeia. Somos seres atmosféricos. Lidamos com paisagens. Somos seres atmosféricos lidando com paisagens. As paisagens tocam-nos de diversas maneiras. Quando refiro o termo paisagem refiro o conceito alemão de landshaft e não o termo francês paysage. O termo paysage refere a noção de região com uma determinada homogeneidade física, onde se regista a história e o acontecer da história. A paysage regista as várias actividade históricas, derivem elas de acontecimentos naturais ou de actividades artificiais onde pulula a mão humana. O termo paysage implica pois uma relação, digamos que, factual com a realidade A paysage é aquilo que nos é dado no olhar, sem mais. Já o conceito alemão de landshaft não limita aquilo que nos é dado desde logo no olhar. A landshaft é uma realidade que nos é conquistada com a visão. A paisagem não é pois meramente aquilo que que nos é dado no olhar as coisas. A paisagem não é uma mera cena ou cenário. A paisagem é algo que nos afecta de modo disposicional. Na paisagem é como se nos espraiássemos. Ao sermos espraiados quase há uma simbiose entre nós e a paisagem. Tornamo-nos seres paisagísticos. Paisagísticos e atmosféricos. A paisagem é a aquisição do fenômeno espacial no tempo do indivíduo, de cada indivíduo. A aquisição de um fenómeno espacial no tempo implica o acontecimento do toque. Somos tocados. A experiência do toque constitui uma categoria ontológica fundamental. É indispensável que nos saibamos ganhar lastro. Ganhar lastro para que nos possamos alastrar. A única terra firme que podemos encontrar é o navegar das areias movediças. A navegação em areias movediças é o único fundamento possível. É fundamental que nos saibamos navegar. Sabendo-nos navegar deixamos de correr o risco de nos deixarmos navegar à bolina. A aprendizagem da arte da navegação é pois o chão firme que me regula.
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