III
Excerto da entrevista com Sebastien Void
Rui Carvalho: explicaste-nos um pouco como entendes o funcionamento do mundo, mas não nos explicaste o modo como te relacionas com as pessoas que fazem funcionar o mundo. Como é o teu relacionamento com os seres acabados que alegremente fazem o mundo funcionar?
Void: os seres acabados são seres sem dúvidas. Os seres acabados almejam o sucesso, a todo o custo. Não há tempo nem espaço para indecisões. Os seres acabados decidem, sem dúvidas e preferencialmente com muita pressa. O segredo do sucesso é ser-se rápido. O segredo do sucesso é ser-se rápido e preciso. Como uma bala. Não há lugar para contemplações. Contemplar é perder tempo. Agir. É fundamental agir, tão rápido quanto possível. Quanto mais depressa melhor. Somos levados na enxurrada da acção. O fundamental mesmo é agir, agir rápido e em força. Não interessa a medição do agir, de todo. O sucesso não admite contemplações. Nem estéticas nem éticas. É fundamental que façamos o nosso mundo rolar. As nossas acções deverão contribuir para que o nosso mundo ande sobre rodas. Pouco importa que para que o nosso mundo ande sobre rodas tenhamos que empacar o mundo dos outros. Somos partículas de realidade atomizadas. Cada um de nós. Cada um de nós é o seu mundo. Cada um de nós é o seu mundo particular. Cada um dos nossos mundos é uma realidade particular e intransmissível. Há partículas de realidade que se repelem e outras que se atraem. Há mundos que se cruzam e mundos que jamais se unem. Os seres acabados empacam o mundo. As acções dos seres acabados não contemplam o lugar do outro. Ou melhor, as acções dos seres acabados vão sempre no sentido de ocupar o lugar do outro. De empurrar o outro para fora de cena. Os seres acabados jogam o jogo dos lugares. Todas as suas vidas gravitam em torno da necessidade de ocupar lugares. Trata-se de ir subindo hierarquias. Os seres acabados são peças no jogo das hierarquias. Ocupando lugares os seres acabados adquirem existência. As suas existências dependem dos cargos que ocupam. Chamemos-lhes ocupantes de cargos. Os ocupantes de cargos são os responsáveis pelo funcionamento ou não funcionamento do mundo. Parece ser mais ou menos evidente que habitamos uma realidade disfuncional. Os ocupantes de cargos são os principais responsáveis pela disfuncionalidade do mundo. Todos somos responsáveis. Todos nós somos responsáveis por deixar que a ganância habite o coração das coisas. Há no entanto graus de responsabilidade. Os ocupantes de cargos são infinitamente mais responsáveis que cada um de nós. Os ocupantes de cargos são gente abjecta. Gente abjecta e imbecil. Os ocupantes de cargos pululam, de cargo em cargo. O melhor exemplo actual de um ocupante de cargos é o Durão Barroso. O Durão Barroso é um personagem abjecto. Acho que sinto qualquer coisa entre o nojo e o ódio. É o que sinto para com esta gente, para com toda esta corja pululante. Desprezo. Acho que é desprezo o que sinto. Não me relaciono. Pura e simplesmente não me relaciono com a corja de seres acabados que pululam o mundo. Há muito tempo que deixei de ver televisão. Ver televisão tornou-se-me impossível. Jamais me relacionaria, jamais apertaria a mão a qualquer um dos Durões Barroso deste mundo. O mundo está pejado de Durões Barroso. São os Durões Barroso que emperram o mundo. Esse facto faz com que o leque de indivíduos com os quais me posso ou me poderia vir a relacionar seja de uma exiguidade extrema.
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