Eis o esgar da transparência, a fugaz distensão que antecede o enamoramento.
Somos educados para olhar o solo, para esquecer os lugares de frutificação - os ramos onde as flores darão fruto. Arrancados à capacidade de voar seguimos destino nenhum, a inanidade deste chão.
Frequentamos distintas frequências de onda. São as frequências de onda que nos distam, de nós mesmos e de todos os outros.
Ou não.
Herdamos a ignorância, de geração em geração. Todos os atavismos.
Contudo, somos seres adaptáveis. Enquanto tal deveríamos adquirir-nos na forma do voo, na magia da fuga aos predadores. A adaptação trouxe-nos aqui. Poderia ter-nos levado a qualquer outro lugar.
Eis-nos, criadores dos lugares que habitamos. Deixemos pois os lugares comuns.
Distanciemo-nos.
Distanciemo-nos para que a distância nos revele. Até que nossa única comunidade seja a comunidade da queda.
Tal qual as aves sobrevieram os dinossauros, nós sobrevir-nos-emos.
Enchamos os balões de ar quente até sermos perto de Ícaro.
Serei prestes a rasar o chão. Como uma ave,
cairei a pique.
Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

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