Tal qual a chuva, cairíamos da previsibilidade de nossos corpos, embarcaríamos terras distantes, essa longínqua viagem por dentro da pele. Somos da estirpe dos que não ficam. O amor encurrala-nos até ao aperto do coração e de corações apertados decidimos seguir em contramão.
Quando amanheceu já o frio se fazia. O intranquilo amanhecer da paisagem era o primeiro indício da queda. Atravessáramos a noite discorrendo anjos e demónios, o amor que tende a partir deixando atrás de si o longo rasto da intempérie.
Acreditamos nos Gregos perto do Olimpo, Teseu perdendo Ariadne por mera distração. Sim, nossos gestos são a língua de Egeu e Antígona, todo o simbolismo da perda.
Tornei-me mestre neste jogo, perdedor até ao âmago da incerteza. Em todas as perdas reencontro tua linguagem, essa tenebrosa beleza enlevando-me os olhos. Somos gente perigosa. Em nossos olhos jaz toda a incerteza das coisas. Durei dias, meses, anos aperfeiçoando a visão do alvo. Fiquei sentado durante décadas aguardando o momento oportuno, o instante que me revelasse uma pequena fragilidade, uma pequena fresta em redor do coração.
Há momentos em que adquirimos o poder de destruir a vida de alguém com o pronunciar de uma só palavra.
Sou contudo incapaz de exercer o ódio.
Haverá um olhar furtivo diante do qual não nos veremos, apenas isso.
Nada mais diremos, nem sequer adeus.
Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

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