Poucos são os objectos à altura dos nossos olhos e há distâncias impossíveis de elidir. Ao aproximarmo-nos da realidade a realidade afasta-se de nós, e, quando nos afastamos, a realidade aproxima-nos.
A dada altura, a morte ser-nos-á tão próxima que nela tropeçaremos.
De qualquer modo, quando deixarmos de nos colocar perguntas as perguntas encarregar-se-ão de vir até nós. Bom, desde que não sejamos completamente imbecis, o que já não é coisa pouca. Um pouco antes da morte, o mais tardar, será esse o momento da descoberta dos instrumentos. Descobriremos que os instrumentos não têm apenas uma funcionalidade, que a instrumentalidade do mundo nos é transmitida na função do tropeço. Que continuamente tropeçaremos nas coisas, como crianças, e, que, na verdade, nunca deixaremos de fazê-lo.
Seria pois fundamental treinarmos os gestos, colocarmos os corpos em sintonia com o rasar do risco. Sabermos depois encarar o vazio, esse peso que nos suga, de dentro, para dentro.
De qualquer modo, as vísceras aguardam-nos um destino animalesco, tornar-nos-ão podres de desconhecimento.
Que o mundo me seja rente à precisão dos ossos, o feroz momento em que a carne se rasga até ser um sortilégio de lugares difusos.
De qualquer modo…
Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

Muito bom
ResponderEliminarUm milhão de sorrisos Pepsodent para ti Inês...
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