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segunda-feira, 12 de junho de 2017

Desertos - XXXVIII - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Mais coisa menos coisa, a adolescência foi a cem metros daqui - enrolando bobines de aço fervendo - descortinando no trabalho a sua estupidez genérica. Os homens indo e vindo, rotativamente, em turnos rotativos, sujos de um trabalho sujo. O pior que fica é essa experiência da igual soma dos dias, os dias somando-se sem nada que verdadeiramente nos importe ou acrescente. Apenas algumas queimaduras nos braços marcando a solidez dos ferros em brasa. 
O lugar onde meu pai nasceu, o cemitério onde jazem alguns amigos, alguns deles tendo acertado a vida em cheio, tal qual os elefantes se abatem na senda do marfim. 
Há noite a música saía da eterna garagem de um amigo, tudo no mesmo perímetro. A vida, a morte e o seu intermédio.
A adolescência foi a cem metros daqui, a cem metros da morte, a cinquenta metros de não se saber bem o quê. 
Haverá uma zona intermédia onde a vida se agita, desde lá até então. O sumo sai agora. É isso que importa: 
- que o sumo verta e que em cheio atinja o cerne do mundo;
- que os corações se gastem de tanto bater; 
- que o fumo dos cigarros se nos pregue nos pulmões;
- que o álcool me mine até à putrefação do fígado. 

A adolescência, esse amor para sempre!

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

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