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domingo, 21 de maio de 2017

Desertos - XXXI - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



A fuligem pre-anuncia o desastre. Os anos passam, ou, vão passando até nos tornarmos o gerúndio de nós mesmos - sem passado nem futuro - somente toda uma sombra que nos estica até ao limite.                           
Os instantes retratam a vida melhor que a vida se retrata a si própria e a volatilidade do tempo impossibilita a fixação de sentido. De qualquer modo, nossos olhos não acompanham a velocidade das coisas e, assim sendo, o mundo é uma assombração que nos visita a cada vislumbre. Sim, as paisagens são-nos sempre outra coisa diferente do que vemos. 
Somente a memória nos fixa. 
Não fosse a memória seriamos loucos como peixes, embatendo nos vidros do aquário a cada vez que o mundo nos chama. Talvez fosse melhor assim. Teríamos um olhar sempre novo e a magia dos encontros acontecer-nos-ia a cada segundo. Desconheceríamos os aziagos factos. Que o mundo é sempre aquém daquilo que precisamos que seja. Que a ilusão nos ilude até nos deixarmos sem pé. Depois da queda nossos dentes auto destroem-se e outra coisa não nos resta senão o destino das vacas, ruminando erva até à regurgitação. 
Somos o breve vomitado de deus. Habitamos casas limpas e acéfalas, alguns campos junto ao rio. João Batista aqui viveu até ter sua cabeça decepada nas mãos de Salomé. 
É sempre assim. 
Procuramos a purificação do espirito e tudo que sobra é este insólito desejo, a sólida carne da mulher amada tornando-me cada vez mais longínquo.   

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

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