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domingo, 28 de maio de 2017

Desertos - XXXIV - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Cimento e ferro forjado, nada que impeça a força das águas deglutindo aquele que jamais fui. 
A orgânica matéria suplanta em tudo as misturas. Sim, os materiais jamais suplantarão o húmus do mundo. Para mais, há a certeza de também nós sermos dados à corrosão. 
Conto até cinco, inspiro - expiro. 
Seja como for, tudo é dióxido de carbono, e, todos morreremos de asfixia. 
Conto até cinco. Reverto a contagem. Descolo-me dos dias como animal ao abandono. 
Ainda assim, educo-me o desejo. 
Algo como descentrar-me toda a ambição. Nada ambicionar excepto: um percurso ao contrário, isso mesmo, da morte para a vida. 
Reconto as frases feitas, os calendários com crianças sorrindo, alguns breves animais de estimação. 
Então, e, de seguida, adequo o desejo ao seu ideal objecto: quem me dera ter quatro braços e quatro pernas! tudo fazer com a precisão dos anjos. Vestir qualquer roupa intrajável, tornar-me invisível e invisível peregrinar esse fundamental gesto - destruir toda a mentira. 
Procurar ainda a substância das coisas, que as marés me atinjam e ao atingir-me revertam a contagem do tempo. Ser impossível, tal qual toda a impossibilidade. 
Entretanto, é fundamental viver as oficinas, esses locais onde as mulheres são nuas e descartáveis como fósforos; onde tudo é possível acender-se e somente tu és tão longe quanto os Km´s que nos distam.

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho



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