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domingo, 7 de maio de 2017

Desertos - XXVII - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho


Às 16H00, religiosamente. Assinalava-me na piromania. Terminava as aulas nesse horário quando as aulas terminavam muito depois. 
A música chegava de continentes distantes, de Inglaterra basicamente. Estranha coisa essa, deixar namoradas esperando em troca da mera voz de um homem. Havia contudo esse éter que me embriagava a descoberta. 
Mesmo aqui ao lado havia vida - O Som da Frente. 
Aqui nada havia excepto o enfadonho fado do ensimesmamento. Era necessário sairmos de nós próprios para voltarmos a nós mesmos. Havia a magia das bandas fazendo magia. Echo and the Bunnymen, a paixão antes ainda das paixões.    
Os transistores percorrem o vazio, emitem sinais que se propagam numa determinada frequência de onda. Daqui até minha adolescência. À adolescência dos seres vivos que se reservam à aprendizagem da queda. 
Tanta miséria faz lembrar-me alguma coisa. Que há algo que nos une, essa pira de corpos transmitindo sinais por entre as chamas - o espirito. 
Há chamas que jamais se extinguem e pessoas que são eternas.
Dance, dance, dance to the radio!


À memória do António Sérgio.

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

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