Assim sou:
uma vida erigindo a passada, adquirindo o modo da velocidade não excessiva; este vício de nada querer de raspão. Qualquer outra coisa que não a precisão da dor de todos os ossos penetrando fundo.
Esta estúpida pretensão: algo como a elasticidade dos segundos, que os segundos sejam elásticos, que me durem mais que o possível. A eterna ressaca de um qualquer conforto contornando a embriaguez do desabrigo, esse algo que me permite ainda dormir, encontrar o sono, nem que seja um lugar mínimo, um par de horas que seja. Uma margem de segurança que me impeça de enlouquecer.
Enquanto isso, os mecanismos do tempo fazem de mim cinzeiro. Tantas beatas que em mim se apagam. A imensidão das cicatrizes. Essa estrita simbiose entre a humana existência e a vida dos cinzeiros. A concisa estranheza nos objectos apagando beatas. Não, não essas beatas, não as beatas que vão à igreja. As outras. Aquelas que se fumam até ao tutano, que gangrenam nos pulmões dos fumadores.
Há qualquer coisa de tóxico neste vício, nesta necessidade de fazer sentido da eterna repetição do mesmo. Uma vez não me deveria bastar para perceber que não vale a pena a oferenda de flores, que as flores são breves a murchar? Que nenhum sopro me salvará. Nada. Nada me abrigará das intempéries.
Esta estúpida mania de transportar objectos simbólicos no pulso, nos dedos, no coração.
Quando a intempérie se abater sobre nós nada nos salvará.
Meros poemas, uma qualquer musicalidade reflectindo o contrário do mundo.
Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

Bonita dupla, parabéns aos dois texto_imagem 👏🏼👏🏼
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