A vegetação sempre aqui esteve, mesmo quando esta sala era habitada pelo choro das crianças - todas elas nascidas no percalço de não haver mais lugares onde nos habitarmos. Após terem nascido era necessário acalmá-las para o susto do mundo. Alguém me pegava ao colo para que sentisse a estranheza dos braços, o vigor de perder o pé, ser retirado ao chão. Ao fim de poucos abraços habituei-me ao escuro. Dormia sozinho num quarto amplo onde os pequenos ruídos se tornaram a minha paisagem. Os sons dos passos e o ranger de portas foram toda a música com que cresci. Assim apreendi os tons do mundo, toda a musicalidade entre o riso e o choro.
Quando voltei já nada havia.
Parti levando comigo o esquecimento, os pequenos alforges repletos de vegetação, a amalgama dos dias, uma espécie de assombração. Tentei habituar-me noutros lugares, pôr minha vida a funcionar com o auxilio do motor de velhos automóveis.
Abandonei depois a beira da estrada, como se a algum lado fosse.
Pois é, desenhamos figuras na paisagem, linhas rectas, tracejados. Deixamos sinais, a violência que o tempo nos exerce. Somos criados em círculos. Sem inicio, sem fim. Repetições, somos meras repetições. Eternamente nos repetimos na miséria de não ter conserto.
Apenas isso.
Os corações estragam-se e o resto das coisas pouco ou nada importa.
Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

Palavras para quê? Gosto muito
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