Translate

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Desertos - XXVI - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Cerco-me de palavras dançando o desequilíbrio e no desequilíbrio me danço. Fui estulto ao ponto de acreditar nas cores do mundo, perder-me entre a vegetação. Deixei meu coração tornar-se leve e assim me fundi nas folhas beijadas no vento. 
Doem-me agora os resquícios do sonho que um dia fui. 
Acho que sempre quis ser parte de um dom agudo; vago, como peixe em escamação. Cercar-me na angústia e na angústia ganhar calo para a morte. 
Coisa estranha essa, uma criança querendo atear fogos em detrimento de deixar-se apagar com os incêndios.
Sim, o peso de um coração morto é toda uma medida, o merecimento de uma vida. Por conseguinte, todas as páginas deveriam ser meticulosamente escritas. Deveria ser essa a nossa única e maior ambição.
Aqui seria o reino de Osiris, Juiz dos Mortos e deus da vegetação, e o humano criado a partir das lágrimas e suor de um deus. Nós, o miserável “gado de Rá” irritando o mundo até aos confins do inferno. Ainda em vida o faraó aqui começaria a construir o túmulo para seu corpo. No sarcófago seria colocado o Livro dos Mortos, essa espécie de biografia que Osíris utilizaria aquando de meu julgamento.
Uma certeza aguda me fere: alguns de nós são filhos do Sol. Outros são filhos da estupidez. Tantos outros não passam de filhos de uma enormíssima puta, todos paridos ao mesmo tempo e no mesmo lugar.

São estas as areias que me movem - próximas - tão próximas do Egipto, desse sonho delirante. 

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho 

1 comentário: