XXXVI
Rui Carvalho: Do modo como descreves a génese da Hidra do capitalismo a partir da industrialização das sociedades modernas e a imposição do consumo como cerne da sociabilidade comunitária podemos depreender que o poder tem uma história, uma cronologia que lhe é própria. Segundo parece, ao longo dos séculos terá ocorrido uma transformação ou mutação nos modos de ocorrência do poder, é isso que podemos depreender?
Void: Nos primórdios do seu exercício o poder era conquistado através da luta, assim foi desde os primórdios dos tempos. A conquista do poder implicava um acontecimento fundamental: que o suor escorresse, que o sangue escorresse. O acesso ao poder implicava a carnificina, que o cheiro ocre da carne habitasse o instinto das lâminas guerreiras. O poder era adquirido na luta, era uma conquista dos mais fortes. A riqueza estava intrinsecamente interligada ao poder. Com o acesso ao poder vinha o acesso à riqueza. A riqueza provinha do suor das terras conquistadas, palmo a palmo. Era assim que o vencedor guerreiro se tornava senhor. Tornado senhor, o aguerrido guerreiro impunha a diferença. Foi a partir da primazia do senhor/guerreiro que se estabeleceram as diferenças sociais. O triunfo era reconhecido como um valor e esse mesmo valor constituía uma mais valia que era recompensada com a conquista de poder, da riqueza que dele emanava. O poder era o poder do mais forte e o poder do mais forte era imposto como lei. Ao vencer na luta, o senhor era reconhecido como superior pelos que se tornavam seus humildes súbditos. Foi pois na vaidade e no orgulho de ser reconhecido como senhor que o vencedor guerreiro se moldou na figura do aristocrata.
A premente disposição para a luta era aquilo que distinguia o senhor e o carácter do senhor. Tal como o orgulho e a vaidade eram sentimentos que derivavam do imperial desejo de reconhecimento aristocrata. A luta podia inclusive estar dirigida à conquista de meros objectos ou objectivos simbólicos, nada alterava o epicentro da vontade de lutar. O epicentro da vontade de lutar era exclusivamente alicerçado na imperiosa vontade de vencer.
Onde e quando ocorreu então essa quebra na vontade de vitória, na vontade de poder? Porque é que o processo civilizacional nos foi amolecendo os instintos até prescindirmos da sangrenta luta pelo poder? Porque quebrou o senhor o seu orgulho aristocrata e se deixou dominar no igualitarismo?
A imposição do domínio quantitativo. É essa a resposta. A difusão e predomínio do império do quantitativo conduz o senhor aristocrata ao temor da quantidade, a temer as quantidades. O predomínio do quantitativo revela-se o instrumento fundamental que conduz à quebra do poder do senhor e do seu ímpeto aristocrata. A partir de uma determinada altura os servos descobrem o poder do quantitativo, o poder das quantidades e da ideia de quantidade. A ideia de quantidade torna-se o instrumento de guerra dos servos.
Os servos são imensos, sempre foram imensos. O momento do descobrimento do poder da quantidade é o momento chave que sinaliza a quebra do poder aristocrata. Os servos descobrem que são muitos e que sendo muitos podem agrupar-se. Ao agruparem-se entre si, os servos adquirem-se no modo da manada. A manada é o instrumento de guerra dos servos. No modo da manada os servos percebem que podem contrabalançar o poder do senhor. A determinada altura, os servos tomam consciência da miséria do seu estado. Os servos encontram-se num estado de submissão. No estado de submissão, a miséria é algo que é comum a todos os servos. Os servos são os muitos na miséria. Aí está a chave. Os servos são muitos. A multitude. É na aquisição da consciência da multitude que se erige o poder dos servos. Somente a multitude poderá contrabalançar, competir com o poder do senhor. Os servos existem num estado de submissão, esse é o seu estado natural. O estado de natureza do servo é o ser submisso. Enquanto submissos, os servos não podem ser considerados homens, pelo menos em sentido pleno. Dai a revolta, dai a insubmissão dos muitos.
Perante a ocorrência da insubmissão dos muitos, o senhor tropeça no receio da morte, no receio da morte violenta. O receio da morte torna-se o pior inimigo do senhor aristocrata. Se antes o receio da morte violenta apenas habitava o coração dos servos, a partir do momento que que o servo se pesa no poder da multitude, o receio da morte violenta passa a habitar também o coração do senhor. A partir daqui não só os servos recearão a sua morte violenta às mãos do senhor, também o senhor aristocrata passa então a temer a morte violenta às mãos da multitude de servos. É neste estado de coisas que a preservação da existência física individual se mostra o mais forte imperativo moral.
O poder deixa de ser o poder do mais forte para se tornar o poder dos muitos.
Li, e gostei muito.
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