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terça-feira, 2 de maio de 2017

Desertos - XXV - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Pois é, é este local de coisas opacas que nos gera a possibilidade da queda ao mero toque. 
E.
Se algo valesse o esforço de sua dicção, dir-vos-ia que a transparência não é visível. Poderia reescrever-vos todo um tratado sobre a invisibilidade das coisas, tudo aquilo que verdadeiramente importa. Contudo, de nada adianta a sustentação de uma tese que não pode ser materialmente comprovada. 
Nossos olhos apenas tocam a efervescência dos materiais e a essência do mundo é qualquer outra coisa que não vimos.  
Pois é, a filosofia não nos põe comida na mesa e eu não guardo paciência para quem não a merece. Nem uma coisa nem outra.  
Seria necessário tocarmos a chama dos vulcões, ter o magma incendiando-nos as mãos. Que nos adaptássemos então a viver apenas com os cotos. Seria essa a prova do merecimento, que mereceríamos reganhar os dedos. Primeiro as cartilagens, depois a pele ao longo dos ossos. 
Sim, deveríamos ser outros a merecer o dom do toque. Não meros animais de pata larga fugindo de si próprios, na fuga destruindo todo o redor.  
Assim sendo:
Nem a filosofia nos põe comida na mesa nem eu guardo paciência para quem não a merece. Nem uma coisa nem outra.  

Deixemo-nos de meras diatribes agonísticas
e
demais esterilidades discursivas!

Nihil est in intellectu quod non sit prius in sensu.”

:ou, 
melhor dizendo:


“baby, baby, baby, light my way!”

2 comentários:

  1. Gosto muito, texto e imagem, com certeza.

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  2. Que Maravilha Rui! Parabéns pelo texto assim como pela imagem que o ilustra, gosto muito.

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