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sexta-feira, 26 de maio de 2017

Desertos - XXXIII - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Anseio tornar meu coração uma biblioteca, pejar-me de livros até ao tecto e acompanhar-me assim a secreta ambição de sobrepor-me aos mosaicos. 
Os mosaicos apenas duram até formarem a abóbada onde a vista se perde.
Adquiro o olhar no cinzento, esse tom que me sulca o bem e o mal. Aí me adequo às grandes catástrofes, e, às pequenas alegrias. 
Também os livros formam longínquas paisagens e a vida é um túnel apertado que nos conduz algures onde nos perdermos, ou não. 
Somos conduzidos como gado até esse local onde nos querem mortos, um qualquer sofá babando a estupidez que nos impingem. Tudo se trata de movimento, da inócua berraria dos apresentadores de telenovelas reduzindo-nos as diferenças, menos ainda que o preto e o branco, sem cores intermédias. 
Seria necessária a dureza do granito para suportar tanta inocuidade. Seria necessário esvaziar-me o espirito, tornar-me tão estulto quanto as várias modalidades do estar sentado. Esquecer que o mundo existe e exige participação. 
A participação nas formas são degraus a subir até um qualquer lugar onde a realidade irrompa. Por conseguinte, devo treinar os músculos até ser apto. 
Percorro agora as virgulas, todos os pontos de interrogação. A dialéctica do mundo: 
a eterna luta dos contrários até à síntese, ou, a miserável vitória do maior poder? Isso e apenas isso.
Seja como for, devo libertar-me as amarras, ganhar calo na estranheza até que nada me seja estranho.

Um desígnio; um desígnio apenas!

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

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