Um labirinto de troncos e ramos, nada mais que a realidade que nos cerca. Iludimo-nos a imberbe tentativa de domar a natureza esquecendo-nos a escuta das raízes crescendo - que as raízes do mundo crescem até ao cerne da lava, até se tornarem puras metáforas. Por baixo deste solo existem rios correndo até ao magma, esse distante lugar que o universo nos centra. Segundo parece tudo começa aí, nas enormes bolas de lava rebentando por todo o lado.
Fomos ardendo até ao arrefecimento, nós e a matéria do mundo formando uma unidade esférica - singular.
Que esta história dure desde há milhares de anos é desde logo um milagre. Contudo, talvez seja possível saber o que o mundo é, mesmo sem conhecimento directo dos factos. Aliás, nunca pode ser de qualquer outra maneira. Trata-se de nos pormos a adivinhar, essa mínima diferença entre o xamanismo e a filosofia. Trata-se sempre de chamarmos a nós a Natureza, invocarmos dentro de nós os rios, os mares, as montanhas. Basta sentarmo-nos num qualquer penhasco junto ao mar. Aí onde tudo se ouve, onde o mundo nos segreda nossa precariedade.
Estamos sempre a um mero passo de cair.
Por mais que treinemos andar jamais seremos seguros. Bom, a não ser que sejamos nados e criados no estupor. Os estupores gostam de julgar-se invencíveis, de subverter todos os outros no riso da sua ganância. Como são gananciosos os estupores, querendo tudo para si! Não apenas a riqueza material, também as almas que a criam.
A perfídia está tão bem engendrada que sequer alguém dá conta dela.
Pois é, os muitos não leram os Antigos. Nem os Antigos nem qualquer outra coisa. Nem um passo deram. Os livros são duros como ferro e as cabeças são ocas como o vento.
De qualquer modo, a vida explodiu na matéria unicelular e um dia tudo voltará a explodir de novo.
Se tudo isto não for poesia, não vislumbro que outra coisa possa ser.
Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

Gosto muito, bravo
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