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quinta-feira, 18 de maio de 2017

Desertos - XXX - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



A vegetação sempre aqui esteve, mesmo quando esta sala era habitada pelo choro das crianças - todas elas nascidas no percalço de não haver mais lugares onde nos habitarmos. Após terem nascido era necessário acalmá-las para o susto do mundo. Alguém me pegava ao colo para que sentisse a estranheza dos braços, o vigor de perder o pé, ser retirado ao chão. Ao fim de poucos abraços habituei-me ao escuro. Dormia sozinho num quarto amplo onde os pequenos ruídos se tornaram a minha paisagem. Os sons dos passos e o ranger de portas foram toda a música com que cresci. Assim apreendi os tons do mundo, toda a musicalidade entre o riso e o choro. 
Quando voltei já nada havia. 
Parti levando comigo o esquecimento, os pequenos alforges repletos de vegetação, a amalgama dos dias, uma espécie de assombração. Tentei habituar-me noutros lugares, pôr minha vida a funcionar com o auxilio do motor de velhos automóveis. 
Abandonei depois a beira da estrada, como se a algum lado fosse. 
Pois é, desenhamos figuras na paisagem, linhas rectas, tracejados. Deixamos sinais, a violência que o tempo nos exerce. Somos criados em círculos. Sem inicio, sem fim. Repetições, somos meras repetições. Eternamente nos repetimos na miséria de não ter conserto. 
Apenas isso. 

Os corações estragam-se e o resto das coisas pouco ou nada importa. 

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

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