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domingo, 14 de maio de 2017

Desertos - IXXX - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Este é o trabalho de deus. A época das vindimas e o lento pisar das uvas. Somos semeados nos mais íngremes socalcos e depois colhidos como sumo. Nós, que nos prenhes lagares nos pisamos para gáudio de um deus sedento. 
Os dias são claros como água, somos nós que criamos as virgulas onde nos tropeçarmos os corpos. No tropeço nos pisamos. Pés e mãos trucidando quem connosco se atravessa.
Para além do mais.
A vida cresce para lá dos pontos cardeais e a leste da cidade antiga de Jerusalém há um monte onde foi perpetrada a perfídia. Todos os anos aqui nos recolhemos, no jardim de Getsamni, no dia anterior à crucificação de Jesus. Segundo os Evangelhos, a angústia aqui foi tão profunda “que Seu suor tornou-se grandes gotas de sangue, correndo até ao chão.” Suor e sangue, essa linguagem única que os judeus sabem interpretar como ninguém. 
Cristo é na proporção de 1 para 1.000.000,00. 
Tal implica que entre nós haja vários Judas e a despedida com um beijo indicie sempre o pior que o mundo é.  
Para além do mais.
O húmus vermelho é uma condição necessária à criação. 
Devemos pois ser moldados na terra áspera e sedenta. É que sem sangue escorrendo - quase eterno - a vida secar-nos-ia até ao definhar da pele. 

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho 

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