Ao contrário de mim
Descendo os céus sobre Roma
a intangível tarefa do reencontro,
o fugaz vislumbre
desse reflexo que um dia fui
minha alma cindida
nas vozes da infernal multidão.
Publios Virgilius Maros
este nome que tão só o cheiro da morte me exala.
A decomposição de um corpo,
o que de mim resta ferozmente abandonado
junto ao átrio das verdades hipotéticas,
agora que uno já não sou.
Um único e último desejo me aproxima das Musas:
um qualquer fio de Ariadne
que me conduza
à mais tenaz acrobacia,
essa inadiável coabitação com o meu fim.
Ao comércio com a ciência me expus
e aí me deveria ter tornado sábio.
Ao invés,
toda a minha incerteza se dissolveu na obra onde este povo erigi.
Toda uma lucidez metaforicamente transcrita
na Eneida.
Hoje,
mais que nunca
amaldiçoo o funesto dia em que Mecenas ao Imperador me apresentou
a mim, que voz não tive para negar a escrita da odisseia de Eneias.
Ó Deuses,
em Mantua me fazei presente
para que de novo minha doce infância possa vislumbrar,
não mais esta infinidade de grãos de areia
perdendo-me entre meus dedos.
Abençoado
no dom de com a minha arte tocar o coração do mundo,
de ao humano proporcionar um qualquer passo mais
além da pura vulgaridade
um qualquer passo mais além da atroz vileza crepitando
onde quer que o vulgo se assome,
no sono me deixei perder os escombros da intrépida realidade.
Estilhaço-me agora na noite há muito esquecida
aí onde erigo o panegírico do Império que agora renego, para sempre.
Ó Grécia,
ó eterna habitação dos deuses
eis-me a minha dação às origens
a realização do sonho há muito acalentado:
morrer o meu regresso
junto a Brundísio.
Rui Carvalho, s. d.
Rui Carvalho, s. d.
Simplesmente uma maravilha 👏🏼👏🏼👏🏼
ResponderEliminar