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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Entrevista a Sebastien Void - I

Rui Carvalho: quem é Sebastien Void?

Sebastien Void: acho que basicamente sou alguém a quem falta o dom da permanência. Nunca soube ficar. Ficar foi-me uma tarefa quase sempre impossível. Durante anos. Não refiro apenas o ficar num lugar. Refiro essencialmente o permanecer numa ideia. Percorri várias cidades, vários sítios dentro das cidades, vários lugares dentro do mundo.  Ao percorrer os vários lugares fui percorrido pelas várias ideias. Sempre fui assolado pela pressa. A pressa de partir. Procurar lugares. Depois de descobrir os lugares entrava em tensão com os lugares onde estava. O estar em tensão levava-me a partir novamente para novamente tentar encontrar outros novos lugares. Fui levado numa espécie de ânsia. Acho que sempre fui ansioso. Desde que me lembro. Construo as coisas em expectativa. Antes de partir construo idealmente as paisagens que encontrarei, ou melhor, anseio pelas paisagens que desejo encontrar. Aquilo que encontro é sempre menos que aquilo que preciso. As paisagens são-me sempre desfocadas. Há um desfocamento. Há um desfocamento entre o que encontro e o que anseio encontrar. Sou disfuncional. Sou tolhido na disfuncionalidade. Sou o hiato entre a realidade que projecto e a realidade com que me deparo. Acho que sim, devo ser esse hiato entre o que procuro e o que encontro. Exerço-me no hiato. Sou alguém que se exerce no hiato. O hiato é o caminho onde me faço. No hiato faço coisas que deixo sempre inacabadas. Acho que no final de tudo acabarei por ser a obra inacabada de Sebastien Void. Acho que todos nós acabamos por ser um pouco o que fazemos. Tornamo-nos o que fazemos. Por exemplo, um juiz, acaba por ser a lei. Um juiz que viva a sua função de um modo exacerbado acaba por tornar-se uma pessoa inamovível, uma pessoa hirta e fria, tal qual a lei que executa. Ou um advogado, um advogado acaba por tornar-se um ser de mentira. O advogado é um sofista. O advogado é o tipo capaz de engendrar a defesa do mais vil criminoso. Esse é o seu trabalho. O trabalho do advogado, na maioria das vezes é o exercício da mentira. O advogado defende os interesses dos seus representados. Ao defender a mentira o advogado torna-se a mentira. Acho que também eu sou o que faço. Sou as minhas obras inacabadas. Sou uma obra inacabada. Sou o caminho entre os lugares. Sou de lugar para lugar. Sou de ideia para ideia. Tornei-me um ser fugaz. Sou a fugacidade. Desapareço facilmente. Faço-me desaparecer. Tenho o dom do desaparecimento. Talvez seja isso que caracteriza o artista enquanto tal. Fazer-se desaparecer para que a obra possa emergir. O problema é que a minha obra não emerge. Eu faço-me desaparecer, mas a minha obra não emerge. Centenas de músicas inacabadas. Dezenas de livros inacabados. Quase uma dezena de filmes por acabar. Telas quase acabas. Muitas telas quase acabadas. É essa a minha vida. A minha vida está nas obras por acabar. Sou uma obra por acabar. Acho que adquiri a forma de uma obra por acabar. Sou o espécimen obra por acabar

Rui Carvalho, s. d.








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