Translate

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Funâmbulos. No desequilíbrio nos balançámos. Funâmbulos. Íamos funâmbulos, junto à pressa de nos sermos. Apressados. Como vagas buscando terra firme. Entre o mar e a promessa da profundeza. Oceânica. A profundeza das vagas de onde viera-mos. Éramos bêbados de ser. Éramos bêbados no preciso lugar dos vinhos. Sulcávamos as vinhas, os campos vindimados no porvir. Íamos e vinha-mos, sem destino. Sem destino nos caíamos. Caíamos o arame onde passávamos os pés. De passagem. Éramos de passagem. Sem regressos. O regresso era uma metáfora. Sabíamos não haver regresso. O lugar de onde viemos é longínquo. Tão longínquo quanto a ira de Deus. Sobre nós caia a ira. A ira de não sermos o que poderíamos ter sido. Por culpa nossa. Por nossa culpa olhámos sem nos vermos. A paisagem. Olhámos a paisagem e na paisagem nos perdemos. Atmosférica. A paisagem redigindo-nos as vidas. O arame onde púnhamos os pés cravava-nos farpas. O sangue escorria na paisagem. Da paisagem para o cerne do ser. Como se nossos olhos fossem inscritos nas escrituras. Estar em Jerusalem era ser Jerusalem. Estar no destino era ser como o destino. Como bombas. Como bombas cravadas nos dias, as horas detonavam-nos. Detonados perseguíamos o sentido. Houvesse sentido e teríamos sentido? Porque não sentimos? Porque não sentimos o sentido? Nosso sentido era percorrer o redor. Andar em redor. Sem visar o centro. Apressados. Tanta a pressa do regresso. Como se o regresso fosse uma possibilidade. O regresso é impossível. O regresso é fora das possibilidades. Andemos o que tenhamos a andar. Percorramos o que tivermos a percorrer. Até à impossibilidade do regresso. O regresso é entre a metáfora e o milagre. O regresso é difuso. O regresso difunde-se. Escorre como areia entre nossas mãos. O regresso é na fé. Veiculado nas metáforas. As metáforas veiculam o impossibilidade do regresso. Indizível. O regresso é indizível. O regresso abarca todo o espectro da solidão. A solidão seria termos ficado. A solidão seria termos sido juntos na procura. Dois seres amando-se até à impossibilidade. Todo o espectro da solidão. A solidão não é sermos um. A solidão é sermos dois. A solidão é sermos dois seres amando-se. A solidão é sermos dois seres amando-se até à impossibilidade. Encontros e desencontros. A solidão é termo-nos encontrado para encontrados nos perdermos. Perdidos. Perdidos nos esquecemos do que fomos. Fomos supérfluos até ao visar da angústia. A perda. Na perda a angústia escorrendo. A angústia degustada em nossos lábios.  O encontro e o desencontro.

O encontro. 


O desencontro. 

Sem comentários:

Enviar um comentário