Eis-me! Pobre de Deus. Transitando. Da merda à mesma merda! Transitando. Havia-me sido prevista a sublimação. E, no entanto, transito. Sou-me longe do espirito. Colecciono coisas. Colecciono coisas transcritas em palavras. Coleciono o degredo. Antes coleccionava dinheiro e com o dinheiro comprava-me mundo. Antes perdia-me no assombro do sol. Antes via as coisas claras. Antes via as coisas claras e vendo as coisas claras não pesava o peso do mundo. Fui cego de clareza e cego na clareza nunca me pesei. Antes ser cego que ser o peso do mundo pesado em meus ombros. Havia-me sido prevista a sublimação. Sentei-me anos defronte os livros. Fui-me os livros como se os livros me fossem. Sentado, esperei. Esperei o dom da escrita. Fui imune ao movimento. O mundo movia-se. Ao meu redor o mundo movia-se. Fui imune ao mundo e ao movimento do mundo. Tantas pernas fugindo-me. Entre meus dedos só a réstia dos dias. Era eu quem me sobrava. Fui falho do talento do triunfo. Resisti até à exaustão. Fui exausto. Fui exangue de tanto esperar. Da espera me resto. Pouca coisa. Nem uma palavra que o mundo toque. Nem uma palavra que o mundo mova. Eu que apenas quis um dom. O dom da palavra que o mundo movesse. Pouca coisa. Uma palavra apenas. Nem carros, nem casas. Resisti aos impulsos, às mulheres em catadupa. Fui focado. Sem distrações. Fui focado no foco. Jamais me irrompi. Nem um sorriso. Livrei-me ao sofrimento da paixão. Fui equanime. Fui a equanimidade. Sem pathos. Tentei o mundo sem a emoção do mundo. O mundo exterior era-me. Contudo, o mundo exterior era-me sem emoção. Apático. Ataráxico. Cinico. Fui autárquico. Sereno. Ausente da dor e da alegria. Neutro. Rechaçando as cores. Apenas claro e escuro. Sem mistura. Fui a experiência neutra das coisas, até ao terramoto. Até à terra tremendo a meus pés. Mesmo tremendo a terra, o mundo jamais se moveu. Nem um passo. Fui pródigo em palavras, mas as palavras jamais o mundo moveram. Nem um único balanço. Dispus-me, junto aos albergues dos leprosos. Fui exilado do mundo para curar as forças. Da paixão restou-me indiferença. Depois seria tarde. Depois seria tarde de mais. Uma educação na arte de morrer leva tempo. Começa e acaba no fim. Nem uma palavra. Nem uma palavra que o mundo toque. Nem uma palavra que o mundo mova. Somente dor. Transcrita. Havia-me sido prevista a sublimação. Nada me chegou. Dias infindos. Apenas. Apenas a cinza dos dias. Infindos. Como se me fumassem a toxicidade. Tornei-me tóxico. Espero seja isso um sinal. Espero ser sinalizado. Para que todos se afastem. O silêncio é o lugar do ouvir. Espero que a gente se afaste. Afastado ouvirei o silêncio do início. No início iniciarei a procura. De novo. De novo buscarei terras afastadas. A promessa da terra. A prometida promessa da terra arável junto ao rio. As águas irrigar-me-ão. Espero. Espero ser irrigado pelo passar das águas. A força das águas levar-me-á. Não necessitarei mover-me. Nem um passo. Nem um passo que seja. Espero.
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