II
excerto da entrevista a Sebastien Void.
Rui Carvalho: a tua pertença ao espécimen obra inacabada faz então de ti um ser especial. Regra geral as pessoas são obras acabadas. As pessoas em geral parecem saber bem por onde ir e o que fazer. Como lidas com as pessoas em redor? Como lidas com os seres acabados?
Sebastien Void: regra geral as pessoas são preenchidas. As pessoas preenchem-se nos seus afazeres. As pessoas são socialmente adestradas para o exercício de funções. Somos socialmente incutidos numa série de apetrechos socio-educacionais que nos tornam seres acéfalos. Não somos educados no espirito critico. Menos ainda no sentido estético e no sentido ético. Bem pelo contrário, desde cedo somos incutidos no espirito de manada. Somos adestrados para ser os muitos, desde cedo. A muita quantidade é a qualidade primeira. Somos incutidos no espirito da muita quantidade. O quanto mais melhor é o nosso lema. Gostar muito é gostar com os muitos. Ver muito é ver com os muitos. Ouvir muito é ouvir com os muitos. Fazer muito é fazer com os muitos. Somos a comunidade dos muitos. Quantos mais melhor. No adestramento social as pessoas tornam-se preenchidas. Estão com os outros. Quanto mais não seja estão com os outros. É este estar com os outros, é este comungar com os outros uma realidade dada que preenche as pessoas. A funcionalidade é a argamassa que nos une. Somos funcionais. Ao sermos funcionais partilhamos uma determinada perspectiva do mundo. Vemos o mundo sob o prisma da funcionalidade. O mundo deve funcionar e nós somos aqueles que fazem com que o mundo funcione. O problema é que o mundo não funciona, pelo menos não funciona da maneira mais correcta. O mundo não funciona, mas as pessoas acham que o mundo funciona. As pessoas têm as suas vidas, fazem as suas vidas. As pessoas têm as suas vidas preenchidas. Desde que tenham um trabalho, uma casa, uma família, nada mais importa. As pessoas estão preenchidas nos constantes afazeres. Os afazeres das pessoas gravitam em torno do seu trabalho, da sua casa, da sua família. Qualquer empecilho é um problema a evitar. Mesmo que tropecem, as pessoas tropeçam em manada. O tropeçar em manada é uma espécie de tropeçar sem que realmente se tropece. O tropeço é dado como um caso de azar. Tropeçamos por azar. O ficar sem emprego, por exemplo, é apenas um tropeço no azar. O desempregado não vê o seu desemprego como uma disfuncionalidade social, outrossim vê o seu desemprego como um caso de azar. Se o mundo não funciona da maneira mais correcta o problema do seu não funcionamento não é nosso. O não funcionamento do mundo em determinadas circunstâncias é apenas mais um caso de azar. É porque fomos tolhidos no azar. Mas na verdade o não funcionamento do mundo deriva do facto de nos estarmos constantemente a atravessar no caminho uns dos outros. É o atravessamento que nos faz tropeçar. A determinada altura o espirito de manada irrompe no medo. No medo tropeçamos uns nos outros. No medo corremos cada um para seu lado. O nosso primeiro propósito é fugirmos ao medo. Fugimos em várias direcções. Cada um para seu lado. Por isso o mundo não funciona. Tropeçamos uns nos outros. No tropeço aquele que está no chão é passado por cima. O que cai é trucidado por todos os que fogem em várias direcções. É trucidado até fazer parte do chão. O que tropeça já não se levanta mais. Está no chão e aí irá ficar. O que tropeça é o falhado. As pessoas não querem olhar a falha. As pessoas almejam o sucesso, almejam tão freneticamente o sucesso que se recusam a olhar a falha. A falha é uma possibilidade que não se quer ver. Recusamos a falha, recusamos a falha e recusamos o falhado. Seguimos em frente, sempre em frente, sem olhar o chão repleto de seres caídos. O chão está repleto de seres caídos sob nossos pés. Nós nem sequer vemos. Não vemos onde pisamos. Pisamos seja o que for e seguimos em frente. O mandamento é seguir em frente, sempre em frente, rumo ao sucesso. O azar é o azar do outro, o que tropeçou e caiu. Apesar disso o mundo funciona, continua a funcionar, pelo menos para nós, que mantemos nossas vidas intactas.
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