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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Percorrer a mortalidade é nunca ter visto o céu. Nunca ter olhado para cima. Nem para cima nem para baixo. O céu só se vê por cima das nuvens. Para lá das nuvens não há em cima nem em baixo. Já não são dispendiosas as viagens de avião. Contudo, sinto medo de voar. Talvez o céu seja superior à mentira. Talvez. Talvez queiramos saber coisas que não nos é dado saber. A curiosidade humana é uma coisa lixada. Quando criança quis saber se meus pais durariam as centenas de anos bíblicos. Ninguém me soube responder. Essas coisas são coisas de fé. Diziam-me. Também minha filha me pergunta agora muitas coisas de fé. Se um dia morreremos. Se um dia deixaremos de ter pais. Toco-lhe a mão ao de leve. Tento levá-la a acreditar no espirito. Que o espirito existe. Quando contemplamos uma obra de arte. Quando ouvimos música. Quando lemos um livro ou um poema. Há algo que se sente. Esse sentir perdura pelos anos, pelos séculos, pelos milénios. Sócrates chegou-nos. Pega-nos pela mão. Basta que nos saibamos também estender a mão. Estender a mão não é um gesto fácil. É mais fácil julgar que tudo sabemos. Que nascemos cheios de conhecimento. Somos ufanos. Há tanta gente que chega a velho sem nunca ter lido um livro. Antes pouco havia a fazer. Havia tanta gente analfabeta. Agora deixou de haver desculpas. As pessoas tornam-se aquilo que querem ser. Digo-lhe que podemos ter sentido. Podemos fazer sentido. Podemos agarrar o que está lá atrás e trazê-lo um pouco mais à frente. Elos de transmissão. Acho que podemos ser elos de transmissão. Pegando o espirito com uma mão para depois o transmitimos com a outra.
Não lhe digo o que agora sei. Que agora sei que nada dura. Muito menos a paixão. A paixão dura a eternidade de um fósforo. Podemos acender muitos. A minha filha é tão inteligente. Só espero que lhe leve muito tempo descobrir como funcionam as coisas. Que a atmosfera gastar-se-á. Entre matriculas de carros. Que seremos golpeados até nada sabermos do que nos foi acontecendo. Diria que nada sabemos. Nada saberemos. Nem onde estamos nem onde fomos. Meros fósforos ardendo. Talvez haja um Deus que nos arde. Talvez. Talvez sejamos uma mera brincadeira. Deuses ardendo-nos até à chacina. Seremos ardidos como fósforos. Essa é a magia. O arder da chama. Somos em chamas. A arder. A despropósito. Tanta chama ardendo. Até que nada haja. Nem um rio. Nem um rio que seja. Como se os mares não nos chamassem. Como se não fossemos regressados do mar.    


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