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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Do espaço, intensamente sorvi a tridimensionalidade. A audição, o olfacto, a visão, o paladar e o tacto. Do tempo só a morte me traz notícia. O destino. Cedo me trazendo o regresso aos primórdios da vida. A doença. Tudo se inicia numa espécie de inflamação da matéria. A doença. O inorgânico originando o orgânico. As estruturas moleculares. Surgindo. Da água, os corpos surgindo. Pela primeira vez. 
O início. 
Estamos no início. 
A água escorre, impregna a terra na vida. Nós estamos na terra. Somos entre a terra e os oceanos. Somos impregnados. Aproximamo-nos da hecatombe. Sem saber que nos espera. Somos no tempo. Entre o início e o fim. Somos entre o início e o fim. Somos intermédios. Como árvores tombando. O truque é aguentar. O truque é aguentar o embate. O mais possível. O tempo corre. Corremos contra o tempo. Nada temos a nosso favor. Somos inflamados na matéria. O espaço e o tempo. Ocupamos espaço e tempo. Somos ocupados. No espaço e no tempo. Fluímos. Entre os extremos. Do fim para o início. A morte regressa-nos. A morte une os extremos. O fim e o início. Em nós, o toque. O fim tocando o início. Em nós. Todas as coisas irrompendo. A doença. O regresso. A matéria. A doença. A matéria inflamada. A matéria inflamando-se. Buscando o regresso. O regresso branqueia-nos. No regresso. No regresso somos brancos. Somos brancos até à secura do sol. 
Fomos húmus. 
Fogo seremos. 
Hei-de arder-me até ser seco. Nada em mim medrará. Tão só a vã promessa. Não serei ninguém. Nada serei. Tão só o esforço de medir forças com o mundo. Fui treinado no esforço. Esforcei-me. Esforcei-me até à exaustação. Tornei-me exangue como as pedras. Seco. Tornei-me seco e pronto a arder. Arderei fundo. Meus olhos na brancura arderão. Na brancura das coisas. Irrompendo. Não apenas a cegueira, a inflamação da matéria. O vazio. Cegos e inflamados no vazio. Eis-nos. Eis-me. Cego e inflamado. Prostrado no lugar de minha morte. Minha morte aqui será. Neste quarto de hospital. Aqui. Aqui e agora. Tudo é aqui e agora. Espaço e tempo confluem, perfazem a unidade. A unidade espera-me. Serei uno. Serei uno para com os outros. Seremos unos uns para com os outros. Havemos de ser conflusos. Haveremos de confluir. Na conflusão seremos unos. Seremos indistintos. Sem resquícios de ganância. A matéria é vã. Somos corpos. Corpos liquefeitos na matéria. Somos água escorrendo. Somos gastos. Gastos e confusos. Confluímos no grande rio do esquecimento. Somos perto do Aqueronte. 
Preparei-me. 
Eduquei-me para a morte. 
Fui a morrer, a cada dia. No entanto, jamais estive preparado. Jamais estamos preparados para a morte. Há sempre esperança. Uma ténue esperança. Sempre houve esperança. No fundo esperamos sempre que tudo não passe de um sonho mau. Inflamados e confusos. Somos inflamados e confusos. 
Espero que tudo não passe de um sonho mau...

Dias. Anos. Décadas. 

Educando-me para a catástrofe. 


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