A saudade. A saudade é o lugar onde se aguarda o poder ser. A saudade sinaliza-nos uma possibilidade em aberto. O poder ser dá-se na forma do vir a ser do quase dado. Algo que esteve prestes a acontecer mas ainda não aconteceu. Por um triz. O quase dado foi o ser por um triz. Por um triz. A distância foi milimétrica. A distância conta-se em décimas, décimas de segundo. O ser por décimas de segundo transforma o tempo num lugar de remorso. De lá para cá. De lá para cá, somos assombrados pelo remorso. O remorso prescreve-nos a saudade. Porque não nos deixámos acontecer? Porque nos deixámos tocar pela norma? Porque permitimos que a norma nos tolhesse o horizonte de possibilidades? Na norma as possibilidades são as possibilidades permitidas pela norma. A norma dirige-nos o caminho. Na norma somos encaminhados. A norma cerceia a paixão. O viver na norma é o viver desapaixonado. Vivemos segundo as regras e as regras são sombrias. Na norma vivemos segundo as regras dadas. As regras são dadas no papel. O legislador legisla as regras que nos regem. Ainda que não escritas. Ainda que não escritas, as regras são dadas no “papel”. Ainda que não legisladas as regras são aceites como lugar comum. Na norma somos o lugar comum. Vivemos na comunidade do lugar comum. No lugar comum somos despejados da vida. No lugar comum somos o que é suposto virmos a ser. Figurantes. É suposto que sejamos figurantes. Figurantes na farsa da sociabilidade. A sociabilidade engendra-nos como autómatos. Somos autómatos no sistema. No sistema somos funções. Cumprimos uma funcionalidade. Cumprimos a nossa funcionalidade. Não somos nem mais nem menos que todos os outros. Somos os outros. Na sociabilidade somos os outros de nós mesmos. O nosso papel é o papel do figurante. Figurando exercemo-nos na ambiguidade. Não desempenhamos qualquer papel na acção. Como figurantes figuramos. Somos natureza morta na paisagem. Não acrescentamos nada à cena. Estamos lá. O nosso papel é estarmos lá. Estarmos lá, no local onde querem que estejamos. Estando lá cumprimos a nossa função. Somos funcionais. Sendo funcionais somos tudo o que havemos a ser. A funcionalidade é sem desenlace. Na funcionalidade não há acção. Na funcionalidade há programação. Na funcionalidade somos programados. Somos programados como autómatos. Exercemo-nos na automaticidade. Movemo-nos de cá para lá e de lá para cá sem que verdadeiramente nos movamos. Movemo-nos sem deixarmos o lugar onde estamos. O lugar onde estamos é o lugar onde sempre estivemos. O nosso lugar é o lugar do figurante. Nem uma luz acessa. Movemo-nos sem que uma única luz de acenda. Na figuração somos sombrios. Não estamos sequer em segundo plano. Não somos sequer actores secundários. Na figuração somos natureza morta na paisagem. A encenação exige-nos a localização na paisagem. Como estacas. Somos estacados nos dias. Estacados, os dias são-nos estanques. Os dias correm sem alteração. Dia e noite, noite e dia. Os dias rotinam-nos. Somos a rotina dos dias. Somos estanques como os dias. Somos os dias a ser, dia e noite e noite e dia. Sem alteração. O mesmo. Sempre o mesmo. Na rotina somos sempre o mesmo da rotina. Sem tirar nem pôr. Nada se acrescenta. Nada se subtrai. A realidade é estanque, a realidade é estancada na rotina. Porque nos deixámos estancar? Porque nos deixámos estancar na rotina? Porque não fomos nós? Porque não fomos o nós que devíamos ter sido? Porque nos limitámos a ser o nós sem enredo? Porque nos deixámos ser o nós da figuração? Porque não tomámos de assalto o palco da vida? Porque não vivemos? Porque nos recusámos a viver? Porque não fomos plenos? Plenos voaríamos as encostas. Plenos planaríamos os rios. Planaríamos os rios em direcção ao ma
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