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terça-feira, 25 de julho de 2017

Útero - VI - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho


       
Não, não somos nada, nem o nosso destino nos ocorre nem poderemos dar qualquer destino ao destino dos outros. As manhãs não frutificam, jamais frutificaram; interrompidas pela sede das coisas estilhaçam-nos agora nesta febre. Brindemos pois o Sol como quem brinca com a poeira, essa efemeridade das coisas. 
Somos perdidos entre os dias, desde a epifania da pele até ao silêncio dos crepúsculos. 
Ainda assim, são tão lindas as mulheres povoando-se na transparência. Os vestidos subindo-lhes as pernas até ao lugar dos afectos. 
Vermelhos, os decotes escorrendo-lhes até aos seios. 
Não, não há claridade que nos revele nossa tez, nada mais que o obscuro equilíbrio do tropeço. Caminhamos várias direcções, as várias cores que nos elegem; longas estradas onde o gelo ainda nos arde. Somos em redor de nossa pele, uma eterna fuga ao suplicio de não saber onde ficar. Como faquires, treinados no ilusionismo, levitamos os pregos do caixão, as almofadas dormindo-nos os ossos, tolhendo o impacto dos projécteis em redor.  
Deixei o amor para mais tarde, esse reino que jamais foi meu. 
Os vidros podem estilhaçar-nos a vida, todos os ecos vibrando desde longe. Tudo pode ser estilhaçado, tudo. 
Tudo excepto a grandeza, o que poderíamos ter sido.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

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