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segunda-feira, 3 de julho de 2017

Útero - III - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho


Os olhos vendam-nos as mãos, de modo que nada mais toquemos para lá das aparências. 
Assim nos limitamos aos lugares comuns. De olhos abertos e mãos vendadas calcorreamos este chão sem tocarmos os corpos que nos jazem. Somos o desdém ao poder do sopro. Trocamos o sopro pelo toque do ouro e é esse o peso que nos venda.
Entretanto, Baco procura-nos Sileno, o velho bêbado perdendo todos os caminhos. Meu pai, ausente no reino de Midas. Dele herdei o dom do descaminho, perdendo-me todos os lugares para que assim me reencontre. 
Somos as escolhas que fazemos, são as nossas escolhas que nos condenam à fome na abundância dos castelos que habitamos. As árvores e os frutos tornados ouro, o pão e a água enrijecidos na dureza dos metais. 
Somos cegos de riqueza e cegos de riqueza adquirimos o dom da morte por inanição.
Somente o vinho escorrendo nos desfará a petrificação de nosso toque. 
Ergo agora o jarro, após tê-lo enchido do divino néctar. 
Somente após o vinho serei retomado no amor, esse eterno caminho para casa, entre a flauta de Pã e a lira de Apolo; toda a música soando este silêncio. 

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

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