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sábado, 15 de julho de 2017

Útero - V - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



É a perecível beleza das coisas aquilo que mais nos indicia no abismo. Não, não se trata de rugas e do fenecimento dos corpos, mas de saber que sempre que uma porta se abre há um mundo que atrás de nós se fecha. 
Seguimos as portas abertas, a solidariedade abandonada ao fenecimento, toda a beleza do mundo soterrada no engodo. 
Sim, Hamelin é uma longa estrada que nos enrola o pescoço, uma espécie de cordão umbilical do qual não nos cortámos ainda. 
Seguimos o encantamento do flautista, as notas ofegantes de quem busca algum sentido. 
É este o problema: ser a polis infestada de ratos. 
As cidades são infestadas de ratos e os esgotos seguem-nos todo o caminho. Ao contrário da fábula, a hipnose traz-nos a infestação para dentro das cidades. 
Após os campos, são agora as cidades minadas pela peste, esta estúpida gente que deixamos nos governe.  
Ratos de esgoto - esse é seu nome. 
Não. Os ratos não foram afogados no rio e a culpa é só nossa. Fomos cegos para as vozes que deveríamos ter ouvido e assim tornámos o rio Weser um esgoto a céu aberto.
As crianças abandonaram a cidade, trancaram-se nas cavernas para de nós se protegerem. 
Tornei-me este maldito manto de silêncio e tristeza:
muitos ratos 
criança nenhuma.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

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